Juremir Machado da Silva

O personagem: memórias de um revolucionário

O personagem: memórias de um revolucionário

O personagem

Alguém aí já se imaginou, com 18 anos de idade, no dia 3 de outubro de 1930, em Porto Alegre, de arma na mão, esperado uma revolução estourar? Já pensou como uma cidade se prepara para o espetáculo de um confronto militar? Alguém aí consegue materializar a rua da Praia ma manhã em que tudo deveria mudar para sempre? É capaz de visualizar as lojas baixando as cortinas pouco antes da eclosão do movimento? Pode vislumbrar a agitação na redação do principal jornal gaúcho, o sério Correio do Povo? Pode conceber o nervosismo no 7º BC, situado no centro da capital, de costas para a Santa Casa? Gabriel d’Ávila Flores, hoje com 98 anos, nada precisa imaginar. Ele viveu os mais importantes fatos da nossa história.
Por isso, além da sua memória intacta, é o fio condutor de meu livro “1930: águas da revolução”. Instalado no seu vasto apartamento, em frente ao parque da Redenção, Gabriel viaja para o passado com a velocidade de quem tem muito a lembrar. Ele viu tudo, esteve nos lugares decisivos, viu a grande história acontecer. Afinal, resistiu aos revolucionários no primeiro momento, sob o comando de Benedito Acuan. Em seguida, aderiu aos revolucionários e viajou no trem que seguiu a composição levando Getúlio Vargas para a frente de combate. Dois anos depois, estaria novamente em Itararé, lutando, outra vez, no lado legalista, no caso, o de Getúlio em oposição à contrarrevolução paulista. Gabriel d’Ávila Flores representa um século de história.
Um mundo precisa ser reconstruído para que possamos entender o que aconteceu em Porto Alegre naquele final de tarde. Que tempo fazia? Como amanheceu aquele dia? O que diziam os homens nas ruas? O que se perguntava ao dinâmico Osvaldo Aranha? Quem eram a gaúcha que brilhava naquele momento pela sua beleza? O que fazia na capital gaúcha o mineiro Virgilio de Melo Franco? O que pensava Getúlio Vargas no seu palácio? Como se mantinham em contato os revolucionários? O que diziam os jornais naquele dia fatídico? O meio de comunicação mais eficaz era o telégrafo. Alguns dos principais revolucionários almoçaram com suas elegantes esposas no Grande Hotel.
Um fragmento do livro e das vivências de Gabriel:
“Sim, Gabriel tem 1930 na ponta da língua, mas 1932, com seus combates renhidos, povoa-lhe a memória: “Vamos para a luta. Os paulistas estão à nossa espera, fortemente entrincheirados na encosta da cidade fronteira – Itararé. As trincheiras foram preparadas em 1930 por determinação do general Paes de Andrade e destinavam-se a impedir a posse de Getúlio Vargas, o que não aconteceu porque aquela viagem tornou-se um passeio. Já a nossa passagem por aí em 1932 foi violenta. Mesmo com outras unidades nos apoiando, tivemos mais de 24 horas de combate. Vencemos, mas nos custou valiosas vidas de quatro brilhantes oficiais, de graduados e de praças. É a guerra. Meio refeitos, tocamos para frente, havia muito o que fazer. Adiante, na cidade de Faxina, estava instalado o quartel-general do comandante do setor Sul, general Valdomiro Lima, com seu Estado-maior”. O pior virá”.