Estava pensando: aprendi pouco na vida.
Aprendi de certa maneira.
Estudando História na PUCRS (bacharelado e licenciatura), aprendi que contar o passado depende do presente.
Estudando Comunicação (jornalismo) na PUCRS, aprendi que tudo é narrativa.
Cursando Especialização em Estilos Jornalísticos na PUCRS, aprendi a importância da forma.
Estudando Antropologia na UFRGS, aprendi a valorizar as diferenças culturais.
No pouco tempo que estive na Faculdade de Direito da UFRGS, aprendi que a lei é um texto a ser interpretado.
Na Sorbonne, durante o DEA em Sociologia (Diploma de Estudos Aprofundados), aprendi que todo fato é bom para pensar e que toda prática acontece associada a um contexto, um imaginário, um horizonte e num campo de forças.
Na mesma Sorbonne, fazendo minha tese de doutorado em Sociologia, sob a orientação de Michel Maffesoli, um dos maiores especialistas em pós-modernidade em atividade, aprendi que a emancipação total pela razão é um mito.
Ainda na França, durante o pós-doutorado em Sociologia, sob a orientação de Michel Maffesoli, Edgar Morin e Jean Baudrillard, aprendi que a complexidade implica a compreensão das diferenças e a explicação das semelhanças.
Michel Maffesoli me ensinou a suspeitar das verdades científicas.
Jean Baudrillard me ensinou a nunca estar onde me esperem intelectualmente.
Edgar Morin me ensinou a não pertencer intelectualmente a ninguém e a duvidar dos discursos de autoridade. Ensinou-me também que um Estado jamais pode executar, mesmo em guerra, prisioneiros sem julgamento formal. Ensinou-me um pouco mais: que um Estado não deve ter pena de morte. E que é lícito e louvável se rebelar contra um regime ditatorial.
Aprendi com Morin que se deve juntar, unir, voltar a romper o cerco das especialidades fechadas.
Em Terra-Pátria, Morin cita Ernesto Sábato em epígrafe: "Precisamos de mundiólogos".
Não podemos nos limitar a saber tudo de quase nada e quase nada de tudo.
Eu já devia saber. Mesmo assim, aprendi.
Saber é pôr em discussão.
Os especialistas devem vir para a esfera pública vencer pelos argumentos.
No Collège de France, onde assisti ao seminário de Umberto Eco, aprendi que o saber total é utopia científica.
Ainda no Collège de France, no curso de Pierre Bourdieu, aprendi que a produção do conhecimento se dá num campo e que todo campo é campo de luta, com dominantes, dominados, troféus e luta pela manutenção ou transformação do campo.
Na Escolas de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, assistindo durante dois e meio aos cursos de Jacques Derrida, aprendi alguma coisa sobre a desconstrução, o método de desmontagem das narrativas e dos saberes constituídos.
Com o historiador francês François Furet, grande especialista na Revolução Francesa de 1789, considerado reacionário, de quem me tornei amigo, aprendi, almoçando, que as pessoas podem viver numa época, mergulhadas nos fatos, e não saber o que viveram.
Com Georges Duby, um dos maiores historiadores do século XX, aprendi que falar de história é reacender paixões. Aprendi também com ele que humildade intelectual e firmeza em pontos de vistas podem e devem conviver num mesmo espírito.
Nos meus estudos livres de filososofia e literatura, aprendi que só vale o melhor argumento.
Um dos homens mais inteligentes que conheci, Jean-François Lyotard, o pai da pós-modernidade em filosofia, ensinou-me duas coisas interessantes e que eu sabia por ler seus livros, mas que, ditas por ele, com comentários e retoques me marcaram para sempre: 1) o conhecimento mais importante vem do diálogo e da experência de vida. 2) Sempre que alguém apresentar uma prova, pergunte o que prova que a sua prova é realmente uma boa prova daquilo que que provar.
Desejo de conhecer a história do Brasil, li tudo o que pude encontrar e que as minhas forças permitiram e me aprofundei na história brasileira do século XX, boa parte dela vivida à sombra tutelar da figura de Getúlio Vargas.
Nessa tentativa de aprender algo, fui rotulado de esquerdista e de direitista.
Nunca me tornei marxista. Nem admirador da exploração capitalista desenfreada.
Certa época, ataquei tanto o stalinismo, depois de passar alguns meses em Berlim e de viajar pelo devastado e melancólico leste europeu, menos de dois anos depois da queda do muro, que fui considerado por esquerdistas agressivos ou nostálgicos um terrível reacionário a serviço das piores forças do mal, as forças da legitimação do capitalismo.
Como me aprofundei nos estudos da crise da modernidade e da pós-modernidade, recebi a etiqueta de inimigos das utopias.
Noutro momento, depois de viajar por muitos países, critiquei tanto a desigualdade que fui rotulado de esquerdista.
Aprendi, lendo os grandes do século XIX, que o jornalista é um intelectual.
Aprendi com Emile Zola, insurgindo-se contra a França antissemita, que o papel do intelectual é dizer: eu acuso.
Mas aprendi com Edgar Morin e Maffesoli que também é papel do intelectual dizer: eu compreendo.
Numa viagem à Dakota do Sul, nos Estados Unidos, empurrado pela leitura de Enterrem meu coração na curva do rio, aprendi com um índio velho, bêbado, gordo e um tanto cínico, que a história é um vento repentino.
Na China, aprendi comi inseto e aprendi que o mundo é muito mais vasto do que pensamos.
Aprendi pouco.
Com todos esses mestres, aprendi que o lugar do homem no universo é modesto, um minúsculo ponto, um mito da modernidade que pretendia dominar, controlar e explorar a natureza graças aos poderes incomensuráveis da razão soberana.
Aprendi também com eles que, mesmo não sendo o centro do universo, o homem vive uma situação paradoxal: cabe-lhe perceber, aceitar e consolidar essa dimensão, o que lhe dá um caráter especial, uma missão diferenciada, pois só ele é dotado de razão.
Uma razão que precisa conhecer os seus limites.
Aprendi pouco. Mas gostei de aprender. E continuo aprendendo.
Aprendi, por exemplo, que tudo é questão de legitimação, mas que não se deve dar carteiraço.
Salvo quando se estiver tomando um por dia.