O professor, o guri e o fantasma
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O professor, o guri e o fantasma

Crônica de uma iniciação

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Meu apelido era Logiquinho. Eu sempre queria mais explicações. Queria saber coisas simples e com efeitos práticos. Perguntava:

– Por que o professor vem a pé da estrada até o colégio?

      Mas também perguntava coisas estranhas:

­– Por que existem ovos azuis de patos amarelos?

      Eram cinco quilômetros para e ir e cinco para voltar. Todo dia. No verão, chegava banhado de suor. No inverno, ensopado de chuva.

– Por que o professor não vem na Ford azul?

      Uma vez por ano, pelas minhas contas, o professor ganhava carona na Ford azul. Nunca nos dois sentidos. Às vezes, eu subia num cinamomo para olhar a grandeza de Palomas. Eram campos sem fim, coxilhas subindo e descendo com a maciez de uma pintura. E lá vinha o professor pela estrada com sua mala de livros e de pequenos discos de vinil coloridos, com histórias incríveis de reis, rainhas, duendes, soldados de chumbo, anões, fadas e até do que eu inventaria quando a memória começasse a me faltar e a me libertar do realismo. Meu pai, do alto do seu posto de maior autoridade do lugar, tomou uma decisão histórica.  Iríamos trazer e levar o professor todo dia a cavalo. Coube-me a honrosa tarefa de ser o seu acompanhante. Montava um cavalo e puxava outro para o professor. A ida até a estrada, perto do meio-dia, era tranquila. A vinda até a vila, ao lado do mestre, uma alegria. A devolução era o problema. Íamos juntos, ao final da tarde, a trote mais largo. Quando eu voltava com os dois cavalos, a noite caía.

      Passava quatro vezes por dia na frente do pequeno cemitério com seus túmulos azuis, brancos e verdes. Eu tinha medo de fantasma. Ainda tenho. Não falava, por vergonha, dos meus temores ao professor. Havia lido numa revista achada num galpão que fantasmas eram brancos, magros, altos e que balançavam ao vento. Quase sempre ventava no retorno. Por que balançavam? Porque ventava. A explicação me convencia. Por que eram brancos, altos e magros? Eu não sabia. Mas acreditava. Para mim, era uma questão de tempo: eu veria um fantasma.

      Os nossos cavalos eram mansos e lindos: o meu, alazão da cor da lua; o do professor, um zaino, negro como a noite que me apavorava. No caminho, o professor me ensinava palavras difíceis como latifúndio, onomatopeia, fisiologia, justiça social e iconoclasta. Eu dia me falou em infringente. Repeti tanto essa palavra, cujo sentido não capturei, que me apelidaram por algum tempo de Logiquinho inflingente. Ninguém conseguia dizer infringente. Tínhamos um vocabulário próprio: ferro de passar era plancha; apendicite era inflamação da pênis; fígado, figo. O professor corrigia. Ou ria. A gente não entendia qual era a graça.

      Num mês gelado de agosto, fui levar o professor até a estrada, que ainda não era asfaltada, e recebia o nome de “terracom” ou “terracón”. O que seria? Preciso perguntar. Eu soube desde o começo que nesse dia eu veria um fantasma. Estava dentro de mim. Um estranho sentimento de que entraria em contato com o impalpável, o misterioso, o insondável, algo que me acompanha até hoje de modo intermitente.

      Passamos em frente ao cemitério com os últimos raios de sol. O professor contava uma história sobre homens voadores. Era tão interessante que eu nem olhei para os túmulos. Quando vi, já estávamos adiante, quase ao pé do morro, o Cerro de Palomas. Deixei-o junto ao bolicho do Juca e voltei a toda. O zaino, no cabresto, atrasava um pouco a marcha. Eu me inquietava. Então, há uns cem metros do cemitério, avistei o fantasma: alto, magro, branco, balançando ao vento. Estaquei. Os cavalos resfolegaram. Havia inquietação no ar. Demos volta. O platô, novamente à nossa frente, parecia mais pesado e escuro. Atravessamos a estrada sem prestar atenção ao movimento. Seu Juca estranhou o retorno. Postou-se diante da casa para nos receber:

– Que houve, guri?

– Um fantasma. Na frente do cemitério.

– Fantasmas não existem, guri.

– Acabo de ver um.

– Que jeito ele é?

– Branco, alto, magro e balança ao vento.

– Quem te disse que fantasma é assim?

– Eu li.

      Seu Juca admirava os livros, que não lia. Ficou em silêncio. Tratei de dizer que sozinho eu não passava pelo cemitério. Ele coçou a barba branca. Disse que eu não podia passar a noite ali, pois minha família se assustaria, mas não podia me levar, precisava tomar conta do bar. Eu nunca o tinha visto tão sério. Normalmente ele me aterrorizava com suas histórias de mortandades. Num dia, queria que eu avisasse meu pai de sete assassinatos na beira do arroio. No outro, eram sete enforcados nos eucaliptos. Ou sete degolados numa tapera. Eu tinha medo de taperas. Sempre sete. Eram só peixes, aves, ovelhas. Eu quase sempre caía na dele. Meu pai não se movia. Ou ria muito.

      Faltava pouco para a noite fechar. Seu Juca sorriu. Disse que tinha a solução. Pediu para eu esperar um minuto. Saiu. Os seus dois cachorros ovelheiros foram atrás dele. Fiquei sozinho pensando no fantasma. Ele retornou lentamente. Era um homem gordo e bonachão.

– Toma – disse, me alcançando uma vara de marmelo.

      A vara de marmelo é flexível, não quebra facilmente. Um ótimo chicote. Cheguei a tomar umas duas varadas na vida. Seu Juca falou:

– Deixa o zaino aqui. Amanhã, a gente leva. Quando chegar perto do cemitério, dá duas varadas no teu cavalo. Ele vai passar zunindo.

– E se o fantasma sai atrás e nos alcança? – perguntei.

– Não tem como?

– Por que não?

– Fantasmas são lerdos.

      A resposta era convincente. Duas coisas me ocorreram. Eu pensava rápido e nunca perdia os nexos entre as coisas. Era o meu jeito:

– Vou no zaino – eu disse.

– Por que mesmo?

– É o mais rápido.

– Guri sabido – ele comentou.

– Tem certeza de que os fantasmas são lerdos?

– Total. Juro pelos meus cachorros.

– Então fantasmas existem?

– Claro que existem.

– O senhor tinha dito que não.

– Me acontece, embora seja muito raro, de mentir.

      Montei no zaino. Saí a trote. Cheguei a embalar um galope. Deixei o cerro para trás como se fosse uma mesa de pedra encravada no campo. Avistei o cemitério. Uma aquarela num cavalete sobre a colina verde. A noite caía de vez. O céu era um amontado de nuvens negras. Apertei os olhos. O vulto branco, alto e magro balançava ao vento. Pensei logicamente sobre as instruções do seu Juca: duas varadas. Dobrei a dose por precaução. Apliquei quatro chicotadas. O marmelo zuniu. O zaino disparou como um raio na quase noite sem luar. Eu me agarrei no seu lombo como um jóquei na carreira da sua vida. Em segundos, estávamos na frente do cemitério, onde meu pai seria enterrado trinta anos depois. Aí aconteceu o mais terrível. O zaino estacou bem na frente do fantasma. Aprendi ali a lei da inércia.

      Passei direto pelo seu pescoço. Caí de bunda no chão, entre pedregulhos, macegas e espinhos, como num poema sobre um guri que levava do petiço o primeiro tombo no meio dos gravatás. Não chorei. Ergui a cabeça lentamente. O cavalo olhava nos olhos do fantasma. Fazia frio. Um pássaro piou não muito longe. Um roliço preá (dizíamos “pereá) galopou para o outro lado da estrada num susto. Por um instante, tudo se imobilizou. Então eu olhei para o fantasma.

      Era uma enorme planta com flores brancas. Como tinha crescido tanto? Balançava inocentemente ao vento do crepúsculo. Recolhi o pelego, montei no zaino como pude e desabalei para casa. No outro dia, confessei tudo ao professor. Ele me ouviu sem rir. Disse apenas:

– Teu futuro está garantido.

– Como assim?

– Serás escritor.

      Muitos anos se passaram. Num vilarejo do sul do Marrocos, onde eu buscava paz e histórias para um livro, encontrei um sábio, um ancião de barba rala, quase aos cem anos. Ele me olhou e disse que sabia da minha história no cemitério. Foi categórico: era um fantasma.

– Quando um cavalo e eu menino olham, ao cair da noite, ao mesmo tempo, nos olhos de um fantasma, ele se transforma numa planta com grandes flores brancas na ponta – explicou, enquanto me oferecia chá.

      Bebi e sonhei que me perdia por entre mil casbás.