Juremir Machado da Silva

O que estou fazendo aqui?

O que estou fazendo aqui?

Sábado à tarde. Navego na internet. Paris Hilton foi presa em Las Vegas com cocaína na bolsa. Ele nega. Diz que a bolsa não era sua. E a cocaína? O que me importa a vida de Paris Hilton? Nadica. Juiz militar do caso envolvendo os policiais do caso do filho da atriz da Cissa Guimarães é pego roubando cabos de telefonia na praia de Botafogo. Olho pela janela. Está cinza lá fora. Fernando Gabeira é parado por traficantes armados durante campanha na favela Vila Cruzeiro. As autoridades cariocas garantem que a cidade do Rio de Janeiro está pacificada. Maravilhosa! A cidade? Não. Quer dizer, sim, isto é, o Rio de Janeiro é maravilhoso apesar de seus governantes.
Paris, a capital francesa, não a patricinha chata, tem manifestação contra a morte por apedrejamento da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani. Foi aí que eu me perguntei: o que estou fazendo aqui? Crise dos 48 anos? Proximidade dos 50? Lembrei-me de uma vez em que estava lendo um livro de Carlos Castañeda. Sim, eu li tudo de Carlos Castañeda. Sim, eu usava cabelos compridos e tinha ideias curtas. Já me livrei dos cabelos. Eu me impressionava com o mestre Don Juan e com os seus ensinamentos. E não desprezava a ideia de usar peyote um dia. Nunca aconteceu. Numa tarde de domingo, muito quente e melancólica, olhando o crepúsculo num vasto estacionamento, deixei escapar em voz alta: “Onde estou?” Uma senhora muito gorda olhou-me de cima a baixo, balançou a pesada cabeça e exclamou: “Ora, no restaurante do Papagaio”. Enfiei Castañeda no saco (uma mochila) e fui dormir no ônibus da Ouro e Prata até Porto Alegre.
No banco do ônibus, porém, eu havia deixado outro livro: “O terceiro olho”, de Lobsang Rampa. Temi me ouvir perguntando: “Que terceiro olho é esse afinal?” Senti mais medo ainda de ouvir a resposta da senhora gorda. Sim, eu tive meus momentos místicos e esotéricos. Mas eles não prosperaram (em qualquer sentido). Pois neste sábado, lendo as notícias na internet, voltei a falar em voz alta: “Que estou fazendo aqui?” Felizmente eu estava sozinho. A Cláudia teria me dito: “Esperando a hora do jogo do Inter”. Continuei a navegar. Alguém de Oxalá previra que o Inter não seria campeão da Libertadores. Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, previra vitória de José Serra no primeiro turno da eleição para presidente.
O que estou fazendo aqui?
Prevendo meu futuro.