Uma pintura
Por que a gente se apaixona por um quadro? Boa pergunta. Ou não? Eu sou apaixonado pelas pinturas fotográficas do holandês Vermeer. São retratos do cotidiano que transmitem uma doce melancolia. Mas vou falar de outro pintor: Paul Cézanne. Entre 1890 e 1905 ele fez uma série sobre os jogadores de cartas. Todo ano eu vou ao Museu d’Orsay, em Paris, e fico parado diante do exemplar mais famoso dessa aventura pictórica. O que me seduz na obra? Por que ela me atrai e para? Eu me pergunto. A partir daí, tento me conhecer e explicar essa paixão.
O que mostra o quadro? Como cada um pode ver ou rever na internet, a pintura mostra dois homens rústicos jogando baralho. Já ouvi um observador comentar: “Nada demais. Dois homens jogando”. É verdade. E não é verdade. Não é toda a verdade. Qual é a verdade? Há um silêncio pesado. Como posso saber que não havia muito barulho enquanto eles jogavam? Não posso. Sinto. Será que minha biografia interfere na leitura da obra? Será que vejo meu pai e seu amigo Ladário jogando truco em Palomas? Não pode ser. Eles gritavam sem parar. Cada um tentava gritar mais alto. Será que me vejo jogando “nove” com um cliente no bolicho do meu avô? Não creio. A gente ria muito. Eu ficava nervoso quando perdia e mais ainda quando ganhava.
A série de Cézanne tem cinco quadros. Um deles tem três jogadores – um dos quais vestindo uma espécie de poncho azul – e um “peru”, um observador, de cachimbo, daqueles que espiam cartas por cima do ombro. Poderiam ser camponeses ou operários. Nunca estive presencialmente na frente dos outros quatro quadros. Minha experiência de fruição é com aquele que se encontra em Paris e chegou a ser roubado em 1961. Um dos quadros foi comprado por um bilionário do Catar por 250 milhões de dólares. Eu pagaria até mais. Por que mesmo?
Não sei. A cena mexe comigo por sua simplicidade e alguma tristeza.
Se fosse alegre eu não gostaria da mesma forma? Talvez. Tenho dificuldades para dar dicas a pessoas que me escrevem antes de ir a Paris. Fico envergonhado de dizer algo tão óbvio para viajantes:
– O que não posso perder em Paris?
– Os “jogadores de cartas” no Orsay.
– Mas isso tem no guia!
– Tem mesmo.
O melhor de Paris está nos guias. A pessoa quer algo que só eu tenha visto e que só ela verá. Quando eu fui pela primeira vez, ouvi:
– Não perde a Torre Eiffel.
Outro dia, tive coragem de dizer a um amigo insistente:
– Olha a garrafa no quadro “Os jogadores de cartas”.
– Que tem ela?
– Não sei. Ela passa uma sensação de vazio.
– Por estar vazia?
– Acho que por causa da rolha.
– Se tem rolha, tem algo dentro.
– Mesmo assim, dá uma sensação de vazio.
– Que coisa estranha. Acho que vou ver.
– Eu também.