Juremir Machado da Silva

O rei Juan Carlos e o imperador Adriano





Nunca tive simpatias por monarquias. Ainda mais num mundo moderno, racional e democrático.

Sou contra o princípio: ninguém pode aceder ao que quer que seja por direito hereditário.

Uma bimbada real e uma coroa obrigatória não me convencem.

Uma declaração do príncipe Felipe da Espanha a Pilar Urbano, biógrafa do rei Juan Carlos, me chocou: "Se meu pai tivesse se oposto à Letizia, por ser plebeia ou divorciada, eu teria renunciado. Não ao trono! À Letizia! Fui educado para reinar. Não posso renunciar ao trono por um capricho pessoal, por um amor, ou projeto pessoal".

Fiquei imaginando a reação de Letizia ao ler essa jura do amor do maridinho. Talvez tenha pensado: “Conversa para impressionar a plebe”. Ou: “Ele diz isso porque não precisou renunciar a coisa alguma”. Coisa estranha, não?, um homem pensar em renunciar ao amor de uma mulher por respeito ao pai e ao trono!

Da realeza espanhola ao imperador plebeu e midiático Adriano, que nunca renuncia ao prazer.

Adriano meteu-se em mais uma boa confusão.

Meu colega Rogério Mendelski costuma dizer que alguns jogadores de futebol saem das favelas, mas as favelas não saem deles. Entendo como se sentem. Eu saí de Palomas, mas Palomas não sai de mim. A diferença é que não me encontro com as cachorras de Palomas para um tiroteio de fim de noite. Pura falta de oportunidade.

A favela, como o sertão de Guimarães Rosa, é um mundo. Universo que não se apaga nem se renega. O futuro de Adriano é nebuloso. O que fará quando, finda a carreira de jogador, não tiver mais ninguém no seu pé para lhe cobrar um pouquinho de equilíbrio? O problema de Adriano é que, ao contrário do príncipe Felipe da Espanha, não foi educado para reinar. Nonada. Tiro que Adriano ouviu, ou deu, foi briga de homem não.

Foi rabo de saia mesmo. Que rabo! Quer dizer, que rolo.

As moças mostravam quase tudo no melhor estilo periguete em alta no baixo mundão.

Muita gente politicamente incorreta exclamou: “Nossa, com toda a grana que ele tem, não podia pegar coisa melhor!?”. Cada um com seu cada qual. Que gosto não se discute nem se impõe. Salvo nas passarelas da alta cultura.

Adriano ia traçar as quatro gazelas? Ou ia reparti-las com o chefe da segurança? Nonada, desta vez não eram travestis não, que Adriano não é o Felipe da Espanha, mas também não é o Ronaldo Gordão.

Compreendo os dois. Foram educados para viver novas emoções a cada dia. Celebridades desse calibre vivem um drama cotidiano: como gastar o dinheiro que acumularam, sentir novamente a emoção do gol, levantar o estádio, escapar do tédio e não entrar em fria? Ou seja, como está no velho Rosa, “cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães, o sertão [e a favela está em toda parte”.

Difícil mesmo é saber de onde parte a bala.

A realeza da mídia tem um código de conduta particular. Falta-lhe o conhecimento da etiqueta para esconder os seus barracos. O rei Juan Carlos mandou tirar a estátua do genro, acusado de corrupção, do museu de cera oficial. O fraque foi trocado por roupas de plebeu. É assim que um homem elegante mantém as aparências.