O Rio Grande do Sul na revolução de 1930
Por que o Rio Grande do Sul, governado por Getúlio Vargas, ex-ministro da Fazenda de Washington Luís, entrou numa revolução contra o poder central? Esse ponto, incontornável, é abordado minuciosamente em meu livro “1930: águas da revolução” (Record), disponível a partir de hoje em promoção para assinantes do Correio do Povo. O Rio Grande do Sul tinha dois chefes conservadores: Borges de Medeiros, cacique absoluto do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), e o próprio Vargas. Borges resistiu o quanto pôde ao processo revolucionário. Por fim, aderiu. Getúlio adoraria ter sido o candidato oficial às eleições de 1930. As suas chances, nesse sentido, sempre foram nulas. A vez era de Antônio Carlos, presidente de Minas Gerais, de acordo com a política do “café com leite”, que dividia fraternamente o poder entre paulistas e mineiros.
Washington Luis, também conhecido como “Mandão” e “Barbado”, resolveu bancar seu pupilo paulista Júlio Prestes. Foi uma rasteira sem tamanho em Minas Gerais. Antônio Carlos mineiramente deu o troco. Não podendo bancar sua própria candidatura como oposição, ofereceu o posto a Borges de Medeiros, que declinou do convite por já se achar velho para a coisa. A candidatura caiu no colo de Vargas, que matreiramente quis, mas tratou de consultar Washington Luís a respeito. Pediu ao presidente da República que consultasse os governadores sobre o seu nome. Mais matreiro ainda, Washington Luís fez a consulta. Inacreditavelmente 17 governadores responderam que preferiam Júlio Prestes, um nome pouco conhecido e sobre o qual, em princípio, não estavam sendo consultados. Perceberam a malandragem? Deu no que deu.
Getúlio aceitou ser candidato da Aliança Liberal, contra a vontade de Washington Luís, baseado num princípio bem gaúcho: não se pode deixar o cavalo passar encilhado. Entrou na campanha. O pau comeu. Não foram pouco os episódios de violência, com tiroteios e mortes em comícios. Na época, oposição e situação terminavam, não raras vezes, suas argumentações de revólver na mão. Em Montes Claros, Minas Gerais, pegou fogo, como se pode ver neste comunicado: “Urgente – Dr. Viana de Castelo – Rio – De Montes Claros – Chegada especial nesta cidade fomos agredidos a tiros, achando-se ferido Melo Viana. Devido falta garantias partiremos dentro uma hora, telegrafando próxima estação. Há mortos e feridos”. Esse Melo Viana era apenas o vice-presidente da República.
O Brasil de 2010 parece ainda ecoar o de 1930. As regras eleitorais não estavam claras. Depois da eleição, candidaturas ainda podiam ser impugnadas. A Aliança Liberal de Getúlio Vargas e João Pessoa garante ter vencido o pleito. Não levou. A fraude será denunciada. Os correligionários de Prestes dirão que se fraude houve foi no Rio Grande do Sul, onde Getúlio teve 228 mil votos contra 929 de Prestes. Bem pensado, Prestes teve uma votação expressiva por aqui. O que foi conquistado nas urnas, mas não consagrado nos fatos, teria de ser alcançado pelas armas. O Rio Grande de pé pelo Brasil.