Juremir Machado da Silva

O Santos e a volta do complexo do vira-lata

Sim, o Barcelona é o melhor time do mundo, o melhor clube do planeta.

Sim, o resultado diz mais do que qualquer tese.

Mas o jogo entre Barcelona e Santos não traduz fielmente a realidade, se realidade é algo que se traduz.

O Barcelona teve mais posse de bola do que habitualmente. Por quê?

Porque o Santos teve medo de jogar.

Muricy teve uma recaída e resolveu jogar com três zagueiros. Armou uma retranca.

Mas se confundiu na estratégia e mandou o time esperar o Barcelona tocar a bola.

Foi a recomendação mais burra da história do futebol.

É o que o Barcelona gosta e sabe fazer.

Muricy inventou a retranca que marca de longe.

Tomou um chocolate.

O complexo de vira-lata, de que falava Nelson Rodrigues, voltou.

Os jogadores brasileiros ficaram congelados de medo.

Não se atreveram a jogar.

Acreditaram no marketing do Barcelona, no discurso da mídia e nos clichês sobre a máquina de jogar futebol.

Poderiam ter vencido? Dificilmente. Mas poderiam ter encarado.

Faltou irresponsabilidade, estilo brasileiro, ousadia, loucura, dribles.

Foi um dos jogos mais fáceis da história do Barcelona.

A partida anterior, contra um adversário sem expressão, foi mais difícil.

No cotidiano, tentamos acreditar, blefamos, apostamos, queremos ver o velho futebol brasileiro, feito de improvisação, ganhar da potência econômica na base da criatividade.

Sem atrevimento, não dá.

Foi vexatório.

Grêmio e Inter teriam provavelmente perdido.

Mas teriam certamente tentado jogar.

Teriam marcado mais, bem mais de perto, e teriam atacado mais.

Faltou, ao mesmo tempo, garra, pegada, atitude, travessura, altivez e coragem.

Chato é que isso serve para o discurso fácil de que não somos nada e que não temos chance.

O grande problema do futebol brasileiro atual é a falta de bons técnicos.

Homens capazes de ousar e de fazer um time ousar.

Falcão tentou. Mas só ficou na teoria.

Precisar voltar a latir.