O suicídio de Getúlio Vargas
Aqui vai um fragmento do meu romance Getúlio, cuja sessão de autógrafos na promoção Biblioteca do Correio do Povo será nesta quinta-feira, 6 de maio, a partir das 18 horas, na Casa RecSul (Praça Maurício Cardoso, 7).
*
Novamente sozinho, com o rosto entre as mãos, numa atitude que não lhe é peculiar, Getúlio pensa no “grande gesto”. Passa-se uma fatia de tempo que lhe parece interminável. Toca a campainha. O camareiro e barbeiro Pedro Barbosa entra imediatamente. “Me chame o Benjamim, Seu Barbosa”. O homem sai. Getúlio ainda se recosta por alguns minutos. Às 8h10min, sai do quarto, só de pijama, para espanto dos que ali se acham, tão inusitada é a cena, atravessa o corredor e vai até o gabinete do terceiro piso. Assusta o mordomo Zarattini, sentado à porta da sala. Cumprimenta-o com um leve oscilar da cabeça. Avista Alzira falando ao telefone. Enxerga Tércio, dormindo em outra poltrona, e lembra-se de ter esquecido de mandá-lo embora. No segundo pavimento, Lourival junta livros e caixas de documentos e os carrega para o carro, no pátio do palácio. Vai guardá-los na casa do seu chefe de gabinete, José Sette Camara. Getúlio volta para o quarto, pergunta, rispidamente, o que Barbosa ainda faz ali, controla-se, ao perceber a mágoa nos olhos do homem simples, e pede-lhe que se retire, quer descansar mais um pouco.
Deita-se. Vê-se no trem subindo de Porto Alegre para São Paulo, ao encontro da revolução, resfolegando rumo à batalha de Itararé, a batalha que não houve, o confronto vencido sem luta, onde percebeu, pela primeira vez, que o adversário recuava para nunca mais desistir de contra-atacar pelos flancos. Vê-se, em Porto Alegre, fardado, declarando, solene, patético, “Rio Grande, de pé pelo Brasil. Não desmentirá teu destino heróico”. Vê-se, de novo, diante de Darcy, em 1950, ouvindo-a dizer, tristonha, que nada a convencia da necessidade de que ele voltasse ao Catete. Pressentia o desastre ou, simplesmente, queria vê-lo descansar.
Vem-lhe, então, à mente a frase anotada vinte e quatro anos antes, numa tarde de primavera, 3 de outubro de 1930, no seu diário de revolucionário com a faixa de presidente de Estado: “Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”. Agosto…, pensa. Já comi muita carne, pensa. Segura o revólver, calibre 32, cabo de madrepérola, leva-o dois dedos abaixo do mamelão esquerdo. Vencera num 24. Partiria num 24. Respira fundo, muito fundo. Se não posso impedir o golpe como homem, eu o farei como cadáver, pensa. A mão treme-lhe por um segundo, antes de petrificar-se numa decisão sem volta. É o último lance. Dispara. Um tiro no coração! Abre-se um orifício no pijama listrado.
São 8h35min de 24 de agosto de 1954, dia de São Bartolomeu e do nascimento, em 1918, de Getulinho. Em 29 de outubro de 1945, o mesmo dia, nove anos antes, da morte da sua mãe, fora deposto por seus generais. Na sua longa carreira, vencera duas eleições diretas: a primeira, em 1930, fora invalidada pela fraude e revalidada pela força das armas; a segunda, em 1950, sofrera todas as tentativas possíveis de fraude, com a patética discussão sobre a falta de maioria absoluta, e terminava, agora, pela força de uma só arma. Na rua do Catete, as pessoas, subitamente despertas, caem de joelhos e choram pelo presidente “assassinado”.