Era uma vez um tempo em que se falava em verdade. Depois, sem que nos déssemos conta na hora, esse tempo passou como uma primavera sem retorno ou como um inverno em que se chegou a crer na vitória do calor humano sobre o frio natural. Sobreveio outra época, mais sinuosa, intemporal, na qual a verdade foi substituída pela ideia de narrativas. A verdade tornou-se anacrônica. Cada narrativa é um projeto inacabado de verdade, uma verdade virtual, potencial, possível, provável, um produto de ficção, ou quase, na prateleira dos bens simbólicos. Nas conversas para matar o tempo pode-se ouvir isto:
– Mas é verdade?
– É a narrativa que estamos construindo.
Desde Aristóteles se sabe que verdade e verossimilhança são artigos diferentes. A verossimilhança é fundamental na ficção. A verdade pode soar a falsa. A boa ficção não. Excesso de verossimilhança leva ao hiper-real, algo que de tão falso soa mais verdadeiro do que a verdade, mais real do que o real, uma aberração. Donald Trump é hiper-real. Quem duvidar que leia os textos de Jean Baudrillard e Umberto Eco sobre a cultura norte-americana da hiper-realidade. São viagens na hiper-realidade cotidiana da América.
– Toda narrativa é verdadeira?
– Não pode ser falsa.
– Mas é verdadeira?
– Deve ser convincente.
– Mas é falsa?
– Não pode mentir.
A verdade é o último reduto de uma ilusão, a de algo que pode ser verificado por comparação ou justaposição com o chamado real. Petistas e antipetistas brigam em torno da condenação de Lula. Os petistas dizem que Lula é prisioneiro político. Antipetistas negam. A Lava Jato condenou Lula por ter recebido um apartamento onde nunca morou e do qual não tem título de propriedade. Os defensores de Lula alegam que não há prova de que o apartamento seja de Lula justamente por não existir documento de propriedade do imóvel. A narrativa da condenação garante que a prova de que Lula é o proprietário do bem é a inexistência do título de propriedade. O argumento é conhecido:
– Não se passa recibo em crime que consiste em não dar recibo.
– Isso é só uma narrativa.
– Isso é a verdade.
– Uma verdade baseada na ideia de que a prova está em não haver prova?
– Há outras provas.
– Indícios.
– Consistentes.
Narrativas não têm fim. Todo dia a história recomeça. Era uma vez uma narrativa sobre a verdade em tempos de pós-verdade e fake news. Não, sobre a prova. Não, sobre Lula. Não, sobre narrativas.