João Gilberto Noll foi o escritor gaúcho contemporâneo que eu mais admirei. Para mim foi o melhor ficcionista brasileiro dos últimos 20 ou 30 anos. E o mais pós-moderno. Silencioso, fechado, Noll deslizava pelo centro de Porto Alegre como um gato sinuoso. Nos últimos tempos, eu já não o via passeando pela praça da Alfândega. Mas, certa época, eu encontrava no começo da tarde pela 7 de setembro. Trocávamos algumas palavras sobre literatura. Ele era gentil, afetuoso e econômico em declarações. Os seus livros, embora minimalistas, conseguiam ser explosivos, contundentes, fortes. Fiquei boquiaberto quando li “A Fúria do corpo”. Muito jovem e cheio de sonhos, pensei com minha camisa azul bordada faltando um botão: “Então é permitido escrever assim. Eu também quero”.
Toda a obra de Noll mexeu comigo. Ele construiu personagens homossexuais densos e cenas cheias de poesia, de violência e até de desespero. Tinha uma escrita fina, sofisticada, cortante. Não havia qualquer excesso no seu texto. Enxugava tudo. Os seus livros eram magros, mas exaustivos. João teve a vida do escritor comprometido exclusivamente com sua arte: pouco dinheiro, muito talento, temporadas no exterior graças a bolsas para escritores, reconhecimento de crítica, muitos prêmios importantes e vendas limitadas. Não somos um país de leitores. Muitos menos de obras de arte. Cada livro de Noll parecia mais perfeito no seu foco. Personagens errantes ou sem nome, flutuando, buscando, arriscando, afundando-se, voltando à tona. Confesso que eu me perdia nessa tristeza. Ler Noll era doloroso. Eu levava semanas para me recuperar dos seus golpes e das frases melancólicas.
Minha última leitura da sua obra foi a do livro “Solidão continental”. Todo Noll está ali. Frase burilada, cenas fortes, apelo da carne, alma sofrida. Há muitos anos, participei de algumas polêmicas sobre a ficção de Noll. Os modernos o acusavam de alguma coisa, talvez de niilismo. Eu, pós-moderno assumido, navegando na contramão, confessava meu deslumbramento. Creio que a literatura de Noll sofreu críticas contraditórias: por não contar histórias ou por contar sempre a mesma história, por não ter personagens ou por ter sempre o mesmo personagem, por não ter utopias ou por ser uma utopia. Noll não era de fazer frases capazes de figurar como epígrafes ou de brilhar no twitter. Nunca foi edificante. Enfiava o dedo nas feridas sociais, remexia nos preconceitos e seguia em frente. Não discursava. Narrava. Não emitia opiniões. Colocava em situação. Não fazia tese. Punha em cena.
Para quem gosta apenas de histórias com muitas intrigas e reviravoltas, a literatura de Noll era difícil, contida, árida. Para quem aceita diferentes registros, desde que haja um subsolo de conteúdos, ele encarnava a prospecção, a revolta surda, a prosa poética sem arroubos, algo meio João Cabral. Não sei como ele se via. Eu o classificava entre os malditos adoráveis. Um resistente. A literatura se engrandece com artistas como João Gilberto Noll. Vai-se o homem. Fica a obra. E a sua paixão.
Ficam o verbo e a sua carne. Noll viveu sua literatura.
Sempre que há verdade num texto a arte se impõe.
Noll merecia ter tido muito mais reconhecimento em vida.
Que fazer em um país em que 15% gostariam de ver Tite como presidente da República?
Outra parte substancial quer Sergio Moro.
Melhor fugir para as páginas verdadeiras de João Gilberto Noll.