Juremir Machado da Silva

O valor das (poucas) ideias

Os grandes intelectuais brasileiros do século XIX foram Joaquim Nabuco e Rui Barbosa.

Eles se engajaram na luta pela abolição como retórica de gigantes.

Anteciparam Zola em comprometimento e acusação.

Os do século XX foram Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior e Antonio Candido, que morreu na semana retrasada. Todos eles misturavam pesquisa com ensaio e experiência de vida e tinham grandes sacadas. Freire explorou a miscigenação como força da brasilidade. Sérgio Buarque bolou a ideia do brasileiro como homem cordial. Até hoje se fala disso. O Brasil vive atualmente uma crise de pensadores. Talvez a razão esteja no declínio do ensaísmo. Nomes midiáticos como Mario Sergio Cortella (esses nomes deveriam ser acentuados como proparoxítonas eventuais), Luiz Felipe Pondé, Leandro Karnal, Laurentino Gomes e outros mais ou menos admirados, citados por tietes, não passam de medíocres ou medianos (nossos dicionários estão atrasados em relação aos diferentes sentidos dados a essas palavras no cotidiano, mas dicionários, de qualquer maneira, não são códigos, não legislam sobre a língua, são depósitos de termos recolhidos do mundo real) palestrantes, comentadores ou organizadores de dados alheios. Falta-lhes originalidade, novidade, estilo, força e boas “teses”. Triunfam pela mídia e pela necessidade de espetáculo intelectual com suas poucas ideias próprias.

O britânico Niall Ferguson e o israelense Yuval Harari costuram informações tiradas de todo lugar.

É como se dessem uma ordem lógica a tudo que está disponível na internet. Mas colocam tudo isso a serviço de algumas teses próprias ou de algumas perguntas instigantes. Ferguson, em “Civilização – Ocidente X Oriente”, questiona: como foi possível que pequenas nações pobretonas europeias viessem a sobrepujar civilizações como a chinesa e o mundo todo? Para dar sabor à resposta, fixa-se em seis aspectos capazes de servir de explicação para esse comprovado, mas improvável sucesso, os quais marqueteiramente chama de “aplicativos”: a competição, a ciência, os direitos de propriedade, a medicina, a sociedade de consumo e a ética do trabalho. Genial.  Uma bela sacada.

Se alguém encontrar uma ideia própria ou sacada instigante numa produção dos intelectuais midiáticos brasileiros atuais ganha um encontro com Michel Temer no Jaburu na calada da noite com direito a um gravador do FBI. A moderna lógica de pesquisa esterilizou a produção intelectual brasileira nas ciências humanas? Ganha uma semana em Brasília quem for capaz de resolver esse enigma. O mundo das ideias exige ousadia. O físico austríaco, naturalizado norte-americano, Paul Feyerabend defendeu, em “Contra o método”, uma epistemologia anarquista capaz de permitir grandes saltos de conhecimento, de enfrentar o positivismo e de favorecer a liberdade de pensamento.

O grande perigo está sempre no medo do novo. Niall Ferguson, comparando “aplicativos”, correndo o risco de ser acusado de etnocentrismo, sustenta que o poderoso império otomano perdeu terreno ao não acompanhar a revolução tipográfica: “Também houve resistência à imprensa no mundo muçulmano. Para os otomanos a escrita era sagrada: havia uma reverência religiosa pela pena, uma preferência pela arte da caligrafia em detrimento da tipografia. Afirmava-se que a ‘tinta dos estudiosos é mais sagrada que o sangue dos mártires’. Em 1515, um decreto do sultão Selim I ameaçou com a morte todo aquele que usasse a prensa tipográfica”. Não estamos ainda, de certa forma, em 1515 mesmo no Ocidente? Não existem os adoradores de canetas, que escrevem à mão?

Será que temos a consciência de viver com a internet e a informática uma revolução tão grande quanto a produzida por Gutenberg? Na era em que tudo pode ser armazenado e difundido em áudio e em imagem, a própria escrita já não está ultrapassada?

Vai perdurar ou perder importância? A confusão entre suporte e conteúdo não é uma forma de apego ao mundo de Selim I? O Ocidente, em matéria de apostas erradas, não fez menos do que o mundo islâmico. Galileu viveu para provar o quanto podia ser fatal ter razão antes do tempo. Só que o Ocidente aprendeu a aceitar mais rapidamente os novos aplicativos.

Niall Ferguson lembra que mesmo ocidentais “conservadores religiosos podiam denunciar aquela ‘máquina vilã’, a imprensa, e olhar com nostalgia para uma ‘época feliz em que todos os Ensinamentos estavam nos manuscritos e alguma Autoridade (...) detinha as chaves da Biblioteca”. Não é o mesmo que sentem agora os críticos da perda de poder do editor (emissor) por causa dessa “tecnologia maldita” que dá a qualquer um o poder de publicar, de ser emissor, de ter canal no youtube e de dispensar a tutela da autoridade? Não é o que experimentam os que se recusam a ler e-books e só se sentem seguros no velho papel? Os bits estão lançados. Não se voltará atrás. Já era.

A prensa de Gutenberg inventou a imprensa. O telégrafo possibilitou o jornalismo moderno. As tecnologias revolucionam nossos mundos. Só não nos fornecem ideias prontas para pensar. Ferguson pergunta: estará o Oriente pronto para superar o Ocidente depois de tanto tempo de papel secundário? O livro de Niall Ferguson evidentemente é um elogio ao capitalismo. Adam Smith é para ele mais importante do que os iluministas franceses e alemães. Como ele parte de um princípio ousado – “os historiadores não são cientistas” –, pode ser dar o luxo de ter insights de quem faz ensaio. Será citado certamente até pelos que repudiam o ensaísmo. Estou entre os que não pretendem explicar o mundo, mas tentar compreendê-lo. Uma boa hipótese indemonstrável pode valer mais do que uma certeza trivial. Elementar. Imagino a fúria dos adoradores desses ídolos efêmeros citados.