Juremir Machado da Silva

O velho de Palomas



Palomas tem muitos personagens singulares. Guma, o oráculo, é um deles. Conhecido como vidente que só prevê o previsível, nunca erra. No dia seguinte às primeiras grandes manifestações no Brasil, Guma lascou na mosca:

– Vai dar rolo!

Outro personagem original, com o qual Guma mantém relação de amor e ódio, é o Velho de Palomas, figura de longas barbas brancas, louco por bife à Camões, que destila o seu pessimismo dia e noite. O Velho de Palomas passa boa parte do seu tempo olhando televisão – canais a cabo sintonizados com uma antena clandestina comprada em Rivera – e analisando acidamente o que ocorre no mundo.

– Vai terminar mal – disse ao ver os quebra-quebras.

Depois de cada frase, solta o seu bordão:

– Eu sempre disse que isso não ia dar certo.

O Velho de Palomas emite os seus diagnósticos e prognósticos sem que ninguém se atreva a contestá-lo:

– Esses vândalos são fascistas da pior espécie! – diz.

Nunca esclarece quem seriam os fascistas de uma boa espécie ou de uma espécie antes da pior. Dá para deduzir:

– Fascistas de esquerda! – berra.

Às vezes, alguém ousa pedir um esclarecimento:

– O que o senhor disse que não ia dar certo?

– Colocar essa terrorista no poder.

O Velho de Palomas não poupa ninguém. Dispara para todos os lados e depois sorri com estranha doçura:

– A culpa é desse governo corrupto – afirma.

Diante dos olhares suplicando explicações, completa:

– A culpa é desse governo corrupto, desses políticos ladrões, dessa oposição canalha, desse judiciário covarde, dessa polícia molenga e dessa mídia oportunista.

O Velho de Palomas vive com saudades da ditadura militar. Garante que foi uma época dourada sem corrupção.

– Todo mundo era honesto. Ladrão ia em cana e não saía. Se estamos assim é por causa do Bolsa-Família – diz.

Depois de segundos saboreando o efeito da provocação, dá outra estocada sem a menor contemplação:

– Criaram uma turma de vagabundos. No tempo dos generais, todo mundo tinha que trabalhar para comer e beber. Vagabundo ia para a cadeia. Vândalo não se criava.

O Velho de Palomas detesta ser chamado de reacionário. Considera-se aquém e além das ideologias. Apaixonado por Gildo de Freitas e Raul Seixas, apresenta-se como o grosso do princípio, do meio e do fim. Mas, sentindo-se injustiçado, dá pistas sobre sua posição.

– Nós, os moderados, nunca somos ouvidos – reclama. – Há um preconceito contra nós porque somos responsáveis.

Ele é contra a PEC 37 e a favor da tolerância zero contra baderneiros. Pretende participar das manifestações em Palomas com um cartaz contra a impunidade. Na semana passada, roubaram o seu rabo-de-tatu e até agora ninguém foi responsabilizado. O grande vilão de tudo, para ele, embora não denunciado pela mídia retardatária, é o ovo.

– O ovo?!!!!

– Ele mesmo.

– Não é o tomate?

– É ovo.

– Por que o ovo?

– O preço do bife à camões está pela hora da morte!

– É mesmo?

– Eu falei que isso não ia dar certo.

– O quê?

– Esse negócio de botar um ovo em cima do bife. Fica bom.

–Isso é ruim?

– A gente gosta e quer mais. Quando não é o bife que está caro, é o ovo.