Juremir Machado da Silva

Ode aos bons alunos

Capote e Lima Barreto

 

      Era segunda-feira. Chovia. Fazia muito frio em Porto Alegre. Todo mundo se lembra. Faz poucos dias. Eu tinha aula de manhã e de noite na Faculdade de Comunicação da PUCRS. Faz 23 anos que exerço essa atividade com orgulho e muito prazer. O tempo passa. A diferença de idade que me separa dos alunos é obviamente cada vez maior. A minha admiração por eles não para de crescer. Como são inteligentes. A tarefa do dia era um debate sobre “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, do brasileiro Lima Barreto, e “À sangue frio”, do norte-americano Truman Capote. Fiquei ouvindo e me deliciando com tudo.

A vida de professor universitário é feita de muitas atividades: pesquisa, publicação de artigos e de livros, apresentação de trabalhos em congressos, projetos, formulários, palestras, orientação de monografias, dissertações, teses e aulas. Tenho passado alguns dos melhores momentos da minha existência em salas de aula. Na minha disciplina de mestrado e doutorado, sempre às sextas-feiras a partir das 16h45, eu entro num mundo de ideias, discussões e encantamento. Neste semestre mesmo, com uma turma excepcional, tenho me sentido no olimpo. Velha expressão para descrever uma sempre nova satisfação.

Voltando ao debate sobre Capote e Lima Barreto. Os alunos vão direto ao ponto. O livro do brasileiro é mais atual na temática: discriminação racial, preconceito e vale tudo pelo poder e pela ascensão no jornalismo e na sociedade. Mas sofre com um certo anacronismo da linguagem. Já o romance de não ficção de Truman Capote desperta interesse por ser a história de um bárbaro assassinato e pela agilidade da narrativa. Com frases diretas e sem rodeios os jovens estudantes, futuros jornalistas, dizem tudo. É muito interessante como laboratório. O que toca a juventude de hoje? Tudo aquilo que mostra autenticidade, pegada, conteúdo e brilhantismo. Eles não suportam enrolação. Alguns meninos e meninas fizeram leituras profundas em poucas palavras, mostrando sensibilidade à flor da pele e precisão.

Belos paradoxos: uma obra romanesca centenária parece uma reportagem sobre jornalismo, ambição e racismo. Já o livro jornalístico, nessa categoria célebre conhecida como jornalismo literário, o romance de não ficção, parece sempre mais uma narrativa de criação. Capote inventou? Cobriu lacunas? Foi jornalista? Lima Barreto fez apenas autobiografia? O seu texto, informal para a época, perdeu viço enquanto o seu tema não para de ganhar atualidade? Nada escapa da galera atenta e voraz. O tempo desaparece. O frio também.

Aí eu saí das aulas pensando: a vida tem sido generosa comigo. Como é bom passar uma manhã e uma noite ouvindo uma gurizada discutir com pertinência obras de dois gigantes como Lima Barreto e Truman Capote. Ainda brinquei com eles ao término de um dos nossos debates. Falei assim: se perguntarem o que fizeram neste dia gelado, digam:

– Ah, ficamos debatendo Lima Barreto e Truman Capote.
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A Viapar garante que duplicou 134 km de estradas paranaenses. Segundo o Jornal o Paraná de 1º de julho a empresa “não entregou nenhum quilômetro duplicado até agora” (na região Oeste do Estado).