Antigamente, tempo que agora significa no começo deste ano da peste de 2020, nova normalidade recebia o nome de anormalidade. Era tudo muito simples e direto. Há muito, porém, que o nome dos bois vinha mudando: velhice tinha virado terceira idade ou melhor idade; risco de vida, com o implícito “de perder a vida”, passara a ser literalmente risco de morte; teto de gastos era arrocho; s vida como ela era tinha algo de brutal. Por um lado, eufemismos ultrajantes. Por outro lado, literalidades constrangedoras. O telemarketing não conseguia conjugar o futuro do presente. Recorria ao “gerundismo”: “Vamos estar transferindo a sua ligação”. Enfim, um mundo bizarro.
Antes da pandemia, casais, às sextas-feiras, tinham conversas padronizadas que abriam frestas para a entrada de um pouco de ar:
– Onde vamos esta noite?
– Não sei. O que importa é dar uma saída.
Nunca mais se ouviu esta pergunta tão banal: “Onde vamos?” Como costumamos nos adaptar, adotamos outra pergunta para a ocasião, feita, muitas vezes, com roupa de sábado à noite ou maquiagem especial:
– O que vamos ver hoje?
– Netflix, Now ou qual outra plataforma de streaming?
Entramos nessa anormalidade chamada de “nova normalidade” por decreto. Quando vimos, já não éramos os mesmos, salvo nas implicâncias. Uma pergunta, pelo bem da verdade, resistiu intacta:
– Onde nos encontramos?
– No Zoom, no Whats’App ou na live do Instagram?
A palavra “live” tornou-se a mais pronunciada do planeta. Ao vivo, mas não uns em presença dos outros. Um “ao vivo” com certa falta de vida. Uns aproveitaram para declarar a supremacia do virtual e anunciar a vitória definitiva da tecnologia sobre o natural. Outros, inconformados, denunciam a pasteurização da existência e sonham com o retorno ao normal, quando trocarão beijos e abraços e dirão:
– Até amanhã na esquina da Osvaldo com a JB.
– Beijos.
Quando se diz beijos, não se beija. Essa é certamente a característica mais marcante desta nova normalidade tão anormal. Voltar no tempo é a grande utopia. O não-lugar (utopos) era aqui. Enquanto esse futuro do passado não chega, ouvem-se, aqui e ali, nesses aplicativos da vida, gritos e sussurros sobre a noite anterior:
– Demais!!!
– O que fizeram?
– Huummm...
– Sexo selvagem?
– Maratonamos uma série de 16 capítulos sobre asteroides.
Não raro, os diálogos têm algo de ficção científica. Fala-se no achatamento da curva, em transmissão comunitária, na vacina russa produzida sem ter chegado à fase três de testes e até em RNA. Sim:
– Esse é um vírus de RNA...
– O RT-PCR detecta o RNA do vírus...
Segue-se um silêncio solene. Surge uma mensagem inquietante:
– A sua conexão internet está instável.