Juremir Machado da Silva

Orquídeas e hortênsias

Orquídeas e hortênsias

Crônicas de hoje no Correio do Povo sobre o dia dos namorados.
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Minha primeira namorada deveria ter sido a Eliane. Não cheguei a informá-la dessa minha pretensão. Ela foi minha colega na Escola Rural Rodolfo Costa, em Palomas, em meio ao verde dos campos, tendo o cerro como fundo. Tínhamos seis anos de idade. Mas brigamos por causa de umas bergamotas e ela chorou. Era muito sensível. Achei-a, chorando, parecida com uma figurinha da nossa “Cartilha do guri” e chamei-a cruelmente de “careta do vento”. Ofendeu-se para sempre. Com toda razão. Foi uma das maiores ofensas que eu já fiz a uma mulher. De nada adiantou eu lhe oferecer laranjas e até o único morango colhido em nosso quintal. Além disso, eu estava apaixonado pela Dona Eulália, nossa professora, de 18 aninhos, a primeira mulher que vi usando minissaia, um escândalo. Ainda penso na Eliane. Por onde andará?
Minha segunda namorada (quer dizer, a primeira, se eu não contar a Eliane) deveria ter sido a Fátima. Ela me informou a respeito dessa sua pretensão. Mas eu não tive coragem de pegar da mão dela numa matinê do cinema Internacional, numa projeção tardia de “Rio lobo”. Nunca me perdoou. Namorou o Canifa, meu oponente diário em tudo, por vingança. Nunca se deve frustrar uma mulher. Minha terceira namorada deveria ter sido a Clara (quer dizer, a primeira, se eu não contar a Eliana e a Fátima). Era morena e bem mais alta do que eu. Tínhamos 11 anos de idade. Num arroubo incrível, eu a pedi em namoro. Para meu desespero e desconcerto, ela aceitou. Fiquei sem saber o que fazer. Saí correndo para contar aos amigos. Quando voltei, ela havia ido embora. Não me quis mais.
Dizem que a primeira namorada não se esquece. Mas eu esqueci. Não sei se foi a Rose, a Elaine ou a Sissi. Namorei tantas em sonho que comecei a me confundir. Lembro-me de que beijei a Mirna no meio dos pessegueiros. Eu tinha 13 anos de idade. Ela, 12. Muito anos depois, eu a encontrei numa praia. Já não era a Mirna. Era uma senhora que me acenava. Respondi-lhe com um cumprimento de senhor e fui mergulhar para esconder as lágrimas. Não, eu não a amava tanto assim. Eu chorava pela minha adolescência perdida. Imaginem que eu queria ser cantor. Ou ator. Pensava em ir para o Rio de Janeiro fazer teatro. Foi nessa época que eu vivi um caso intenso com a Júlia. Paixão fulminante com idas e vindas. Ela nunca ficou sabendo desse nosso envolvimento profundo. Pena!
Minha eterna namorada é a Cláudia. Aprofundamos nosso amor em vários anos de vida no exterior, num apartamento de 18 metros quadrados, em Montparnasse, todo roxo, inclusive o teto, passando 24 horas por dia juntos, até nas aulas. Viver no exterior leva ao divórcio precoce ou ao amor eterno. Vamos dar um pulo à França agora em junho, onde preciso participar de um seminário na Sorbonne. Aproveitaremos para comemorar 21 anos de namoro. Cláudia ama orquídeas. Prometo-lhe hortênsias. Ao ler este texto, ela dirá: “Já não te falei para não contar as nossas coisas no jornal?” É o amor. Feliz dia dos namorados a todos. Ame sem moderação. Faz muito bem.