A nostalgia é uma taça de chá que se bebe ao entardecer.
Para os cinéfilos, “Cidadão Kane” é o filme. Orson Welles, o cara. Dificilmente se encontra uma lista de melhores filmes de todos os tempos sem “Cidadão Kane” na ponta. Welles nasceu há cem anos, em 6 de maio de 1915. Que safra a desse ano. Grandes livros, entre os quais “A metamorfose”, de Franz Kafka, e grandes nascimentos. Tudo, porém, passa. Os jovens olham “Cidadão Kane” e ficam constrangidos. Foram informados de que é uma obra-prima, mas não conseguem saber a razão. Uma leitura da situação culpa a juventude, considerada insensível, ignorante, inculta e incapaz de compreender a grande arte. Outra possibilidade, mais dolorosa, passa por aceitar que tudo perece, até o que parecia insuperável como marca do sublime na vida.
Vejo “Cidadão Kane” quatro vezes por ano. Já sonhei e, como o magnata do jornalismo de Orson Welles ao morrer, sussurrei: “Rosebud”. Talvez eu tenha de reduzir a minha dose anual de Kane. Nunca ninguém saberá o que era “rosebud”. Ou, ao contrário, todo mundo sabe: aquilo que se procura para dar sentido à vida. Kane foi de menino pobre a magnata por uma herança com cara de loteria. A sua mãe ganhou uma mina graças ao pagamento de um cliente de pensão sem dinheiro com uma escritura sem valor. Jerry Thompson, o jornalista encarregado de vasculhar a vida de Kane, para descobrir os significado da palavra “rosebud”, concluiu que o personagem "foi um homem que possuiu tudo o que quis, e depois perdeu tudo. Talvez Rosebud seja algo que ele nunca tenha possuído, ou algo que tenha perdido”. O filme, contudo, termina com uma imagem do trenó, brinquedo de infância de Kane, cujo nome era “rosebud”.
Só na infância pobre, brincando solitário na neve, Kane tinha sido feliz.
Simples assim. A cena que mais me impressiona no filme é outra, secundária, acessória, quase insignificante: Bernstein, interpretado por Everett Sloane, parceiro de Kane, em determinado momento, tomado por uma onda de saudade, conta com precisão e detalhes que, em 1896, na baía de Hudson, o barco a vapor em que se encontrava passara por outro onde viajava uma moça de vestido branco com uma sombrinha na mão. Ele viu a moça por um segundo somente, nada mais do que um segundo, mas, ao longo da sua vida toda, nunca deixou de pensar nela. Por que isso me encanta? Não sei. Gosto desse mistério do fugaz. Orson Welles virou mito. Aprontou muito, quase sempre com talento.
“Rosebud” é a chave para o imaginário. A palavra que abre o nosso jardim secreto. Cada um tem o seu. Todo imaginário é real. Todo real é imaginário. Sempre digo. Não só por ser uma interessante inversão. Mas por ser uma ficção real. Fiquei pensando que palavra eu poderia exclamar na hora do último suspiro, que espera esteja bem distante. Não foi difícil encontrar: Palomas. Como o trenó de Kane, porém, a minha Rosebud só pode ser encontrada no meu imaginário. Palomas, no meu mapa mental, está aquém e além do seu lugar geográfico. Talvez seja um lugar ao lado de Palomas, a Florentina. “Rosebud”, Kane, Orson, a moça da sombrinha, tudo é imaginário.
Onde andará a moça da sombrinha?