Juremir Machado da Silva

Os estupros da res publica

O filho de Tarquínio, o soberbo, estuprou Lucrécia.

A monarquia caiu.

Desde então, a republica nunca mais parou de ser violada.

Tem escândalo novo na praça. Olha o malandro pego com a boca na botija outra vez. Para uns, é o mensalão dois. Para outros, mais do mesmo. O novo escândalo tem um componente dos velhos: o suprapartidarismo. A lama jogada no ventilador por Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás, em busca de um alívio na sua pena, envolve PT, PMDB, PP, PR, PTB e PSB. Esquerda, centro, direita e centro-esquerda. Tem para todos os gostos. Os nomes citados vão de ministros, governadores, senadores e deputados a simples operadores, de Sérgio Cabral (PMDB) e Eduardo Campos (PSB) a Roseana Sarney (PMDB), Mário Negromonte (PP), João Vaccari Neto, tesoureiro do PT (que carguinho maldito), Romero Jucá (PMDB), Ciro Nogueira (PP), Cândido Vaccarezza (PT) e João Pizzolatti (PP). “Imundou” de vez.

Tem cara da Bahia, de São Paulo, de Pernambuco, do Rio de Janeiro, do Piauí, do Maranhão. A corrupção não respeita fronteiras ou divisões administrativas. Vai aonde o dinheiro está. A conclusão mais óbvia, diante da nova tormenta, é a seguinte: um consórcio de partidos e de políticos continua metendo a mão no alheio, que de alheio nada tem, pois é o nosso. O novo jato, que não lava, sujou algumas reputações. Nem o falecido Eduardo Campos, que se apresentava com o novíssimo Omo (quem se lembra?) para lavar mais branco, escapou. Quem vai levar a pior nesse novo rolo? A candidatura vacilante da presidente Dilma? A candidatura ascendente de Marina Silva, obrigada a explicar os esquemas da compra alaranjada do jato do amigo morto e agora sua vinculação a uma operação poluída?

O PMDB nunca leva a pior. Finge-se de morto para permanecer muito vivo. Não tem candidatura ao Planalto. Faz o modesto papel de linha secundária. O PTB tem a estranha mania de aparecer em manchetes que fazem estrago. O PSB nem chegou ao poder e já está dando explicações. O ministro petista Gilberto Carvalho diz que é tudo boataria. O presidente do PSB, Roberto Amaral, garante que a inclusão do nome de Eduardo Campos na tal lista é mera ilação do delator. Marina Silva promete reagir às denúncias “conversando”. A presidente Dilma espera mais informações para tomar providências. Os políticos desesperam-se e ligam para uns e outros tentando saber se poderão aparecer em alguma nova lista. O circo pegou fogo. Bateu o pavor.

De que são acusadas as excelências? De receber propina. O presidente de senado, Renan Calheiros, e o presidente da Câmara de Deputados, Henrique Eduardo Alves, ambos do PMDB, também teriam sido citados pelo delator mais temido do Brasil no momento. O lema dele é cair atirando para se livrar da Papuda mais rápido do que os mensaleiros. É incrível como Renan Calheiros consegue estar sempre nas piores manchetes. Dado que notícia é, acima de tudo, notícia ruim, Renan é o homem-notícia. Nasceu para dar manchete. Na página político-policial. Não está sozinho. A base do governo está com ele. Aécio Neves é o grande beneficiado? Alguém ainda se lembra dele? O povo já fala: Aécio Neves fora, a campanha tomou um novo tranco.

E a res publica continua a ser estuprada.