Juremir Machado da Silva

Os lacerdinhas da Veja e a calcinha da Câmara dos Deputados

Somos (quase) todos vadias.







Discutir é fundamental.

Cada um põe um pouco e depois vê o que sai.

Uau!

Na época da calcinha-calçola bicolor da Câmara de Deputados, mistério ainda não suficientemente esclarecido nestes tempos de tanta transparência, precisamos falar da Marcha das Vadias e de outras marchas.

Sem dogmas, sem raiva, sem tabus, sem medo.

Abertamente.

Marchemos.

A propósito, Liniane Haag Brum, no seu belo livro “Antes do passado, o silêncio que vem do Araguaia”, escreve assim: “O movimento foi exterminado pelo governo brasileiro em três campanhas militares de cerco e aniquilamento. Além de soldados e oficiais do exército brasileiro, a repressão contou com a participação de policias estaduais e federal e de órgãos governamentais como o Incra, por exemplo. Algumas pesquisas apontam a participação de um contingente de seis mil homens; outras estabelecem como vinte mil o número de participantes na repressão”. Outras, em dez mil homens. Se precisar, falarei de outras fontes.

O Brasil já tinha pago mico maior em Canudos, esbanjando homens e coletando fiascos.

Enfim, uma marcha.

Tenho sempre um arsenal de respostas para disparar contra os que, por excesso de ignorância, acham-se muito informados.

É incrível como quem viveu certa época costuma pouco saber sobre ela.

Escreverei um texto exclusivo sobre a corrupção durante a ditadura de 1964.

Como diz a música, são tantas ilusões...

Outras marchas.

Em defesa de Dani, o vermelho, os jovens franceses de maio de 1968 gritavam: “Somos todos judeus alemães”. Eu quero gritar agora: “Somos todos vadias”. Quase 50 anos depois, as ideias de 68 ainda estão sendo implantadas. A Marcha das Vadias é um dos mais importantes movimentos contra o machismo, a caretice e a estupidez. Achar que mulher pode ser agredida por usar roupas provocantes é mais uma dessas marcas históricas de sociedades dominadas por seres portadores de cérebro de ervilha. Deu. Os tempos são outros. O moralismo impositivo não emplaca mais. As proibições não convencem nem são respeitadas.

Criminalizar as drogas já provou a sua ineficácia. Cria-se um crime e, graças a isso, outros, muito piores, são ampliados. Homens inteligentes como Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso, que de radicais não têm sequer o passado, já se convenceram de que o combate às drogas pela repressão deu os doces. O próprio princípio filosófico da coisa é falacioso. É comum que um inimigo total da intervenção do Estado na economia seja defensor da intervenção do Estado na vida privada das pessoas. Ultraliberais econômicos pode ser radicalmente estatizantes em comportamento. Dos outros. Não cola mais. Chegou o tempo absoluto do convencimento. O cigarro e álcool não devem ser proibidos. Precisam permanecer legais e ser objetos de campanhas permanentes de desestímulo ao consumo. O mesmo deve valer para outras drogas. Ninguém deve ser reprimido por consumir. Não funciona.

E atinge um direito individual inalienável: o direito de se autoimolar.

Digo isso e acrescento: consumir drogas que causam dependência é uma idiotice. É uma doença? É uma prática que pode se tornar, em alguns casos, rapidamente uma doença. Somos todos vadias. Quase todos nós temos um vício secreto. O vício de alguns é não ter vício. Queremos menos hipocrisia. A sociedade pós-moralista pergunta: por que álcool pode e maconha não? Alguém pode seriamente responder que álcool faz menos mal? Ou provoca menos dependência? Ou mais lentamente?  Ou será que álcool pode por ser um negócio estabelecido altamente rentável? Não fumo. De tipo algum. Não condeno quem o faz. Bebo moderadamente. Descreio das razões e dos resultados da repressão ao consumo de drogas.

É preciso proteger crianças e adolescentes, convencer adultos a brincar de outra coisa, usar a razão e a argumentação.

Reprimir é uma ideologia do século XIX. Michel Foucault, talvez o mais importante filósofo e historiador do século XX, mostrou a origem e as finalidades das instituições totais, destinadas a conter os incômodos, dos doentes mentais aos assassinos. Uma especialista no assunto me disse outro dia: “O louco de hoje, para quem pensa em termos de isolamento e repressão, é o drogado”. O crime, como a língua, pode ser uma convenção. Os homens estabelecem o que é certo ou errado. Podem mudar as regras. Estamos na era do convencimento. A repressão não convence. Somos todos vadias. Queremos mais autocontrole do que controle, mais argumentos do que proibições, mais coerência e menos moralismo.

Questões de saúde pública não se resolvem com armas pesadas e mais polícia na rua.

Os lacerdinhas da Veja pregam moral de calcinha.

A calcinha da Câmara dos Deputados.