Juremir Machado da Silva

Os partidos e seus caciques comprometedores

Partidos políticos não seguem a lógica dos mortais.

Ou seguem até demais.

Depois de 59 anos de vida pública, José Sarney resolveu se aposentar. Foi a grande notícia de 2014 para o Amapá. Saiu de cena como um clown. Fez um longo discurso para um plenário vazio no qual mentiu para si mesmo e para as cadeiras. Agradeceu ao Brasil por tê-lo eleito presidente da República, o que jamais aconteceu, e chamou o pobre e atrasado Maranhão de vanguarda do país, o que fez do Maranhão, mais uma vez, motivo de pena. Eu sempre entendi José Sarney. Nada mais do que um aproveitador caro num país barato. Custei mais a entender o PMDB, que nunca se livrou dessa herança maldita da ARENA. O problema não era Sarney nem o PMDB. Era eu.

Só eu mesmo para esperar que o PMDB se livrasse do seu coronel mais bem-sucedido.

O senador gaúcho Pedro Simon também se aposentou. Foram 60 anos de vida pública. Aprendi a admirar Simon, especialmente a sua retórica. Gosto quando ele fala do MDB com brilho nos olhos. O MDB foi o partido da sua vida. Só nunca entendi porque Simon jamais se livrou do PMDB e do José Sarney. Só pode ter sido falta de opção. O petista Eduardo Suplicy também voltou para casa. Em entrevista, disse ter contrariado o PT uma única vez. Por que tão pouco, Eduardo? Só quem não voltou para casa foi Paulo Maluf. Graças ao Tribunal Superior Eleitoral, Maluf – considerado o maior símbolo da corrupção brasileira, só perseguido nessa competição por Adhemar de Barros, com quem divide o rótulo de “rouba, mas faz” – ganhou ficha limpa para mais um mandato. Por que o Partido Progressista nunca se livrou do celerado Paulo Maluf? Será por isso que o PP lidera com dez nomes a malfadada lista de Paulo Roberto Costa dos que receberam propina?

Entendi parte da teoria da relatividade, entendi páginas inteiras de Jacques Lacan, entendi os momentos mais enrolados de Guimarães Rosa e de James Joyce, entendi até alguns dos seus piores imitadores, entendi discursos do Lula e artigos do Delfim Neto, entendi o vocabulário de Marina Silva e o ressentimento de Aécio Neves, só não entendi as razões do PMDB e do PP para manter Sarney e Maluf. Sou taipa? Certamente. Se o PMDB e o PP gaúchos são diferentes, por que nunca saíram de vez do PMDB e do PP nacionais?

– Política não é assim – ouço dizer.

Deve ser por isso que a política sempre aparece associada a matéria fecal, com o devido pedido de desculpas por tão malcheirosa metáfora.O PT também não quis se livrar de José Dirceu e sua turma. Questão de fidelidade.

O tempo das imagens familiares foi enterrado pela propaganda política e pelos escândalos de corrupção. Depois de ler que o TSE liberou Paulo Maluf por entender que o seu erro não foi doloso (intencional), mas culposo, tomei uma decisão rápida, certeira e bacana: escrevi ao Papai Noel para dizer que creio nele. Já era tempo. Farei o mesmo em breve com o Coelhinho da Páscoa. Sarney se foi. Deve o seu momento de glória, a presidência da República, às bactérias que derrubaram Tancredo Neves antes da posse. Maluf continua. O homem é imortal.

Deve a sua permanência às bactérias que o absolveram.