Juremir Machado da Silva

Outra crônica de passarinho

Outra crônica de passarinho

Bem-te-vi

Meu sonho era escrever uma crônica sobre passarinhos.
Quando completei 40 anos, jurei que ia escrever uma crônica ornitológica.
A literatura, especialmente a crônica, deve ser, como diziam antigos especialistas, o “sorriso da sociedade”.
Admiro quem escreve sobre temas delicados.
Chorei, faz muito tempo, é verdade, ao ler uma crônica que falava de um passarinho pousado na janela do cronista. Sempre quis ser um escritor ornitológico. Já tentei com sabiá, beija-flor e andorinhas.
Não fiz verão.
Cheguei a citar a ararinha azul. Mas não voei muito longe.
O bem-te-vi era a minha última chance.
O passarinho mostra a generosidade de quem escreve.
Revela um olhar superior, altivo, acima do rasteiro, um sobrevôo, entendem?
Eu estava na rua quando notei o bem-te-vi. Os sonhos são frágeis. O pássaro, apesar de minúsculo, deixava escapar da plumagem irisada uma sensação de translúcida fortaleza.
Minha alma se refugiou nela mesma para refletir sobre os murmúrios do vento. Como se estivesse escrevendo uma crônica, sob um raio de sol, eu já me preparava para digitar, embalado pela inspiração saltitante, a palavra “transido”. Pois, confesso, para mim crônica sobre passarinho não pode esquecer a palavra “transido”.
Não sei a razão. Imagino que seja por causa de um trauma de infância, algum passarinho morto transido de frio.
Certo é que para mim não tem crônica de passarinho sem “transido”. Estava difícil de encontrar um jeito de pôr transido na história, visto que enxerguei o bem-te-vi num dia morno de outono. Trabalhei duro. Encontrei uma maneira. Estabeleci uma lei da crônica sobre passarinho: não misturar nada externo à essência do tema. Evitar reflexões sobre a natureza da crônica. Falar só de passarinho. Passarinho transido. Reescrevi o texto, de cabeça, quatorze vezes antes de chegar ao melhor de mim. Terminava com esta bela frase lembrada de Julien Gracq: “As árvores continuaram mudas e assustadoras até as alturas azuladas do horizonte”. O bem-te-vi sorriu para mim.
Minha crônica estava pronta. Era de ganhar prêmio. Foi aí que ouvi uma gritaria. A polícia estava prendendo um drogado. O sujeito fez cocô no chão, meteu a mão no troço e comeu ali mesmo. O policial vomitou. O bem-te-vi bateu asas. Ficou um rastro fulgurante de penas e de sol. Corri para casa. No caminho, esqueci a crônica. Não concorri ao prêmio. Continuo em dívida com os passarinhos. Talvez, passada a decepção, eu tente com um canarinho.