Preciso tirar férias com urgência. Só para ler os livros que recebi nos últimos dias. Ontem, cometei sobre parte da colheita. Hoje, falo de uma segunda fornada. Coloquei todos em cima da minha mesa e fiquei ali contemplando-os. Que belos objetos! Quanta história para ser absorvida, degustada, entendida, debatida. O primeiro que me veio às mãos foi “Vozes da ancestralidade”, de Neusa Demartini, minha colega como professora durante muitos anos no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS.
A quarta capa já me pegou: “Nesta história, o preconceito racial permeia a vida de todos”. Essa temática continua importante. Ainda não demos o salto da libertação. O segundo livro me chegou diretamente pelas mãos do autor: “A atualidade do pensamento pedagógico de Paulo Freire”, de Thiago Ingrassia Perreira. Pode ser mais adequado para os tempos que correm? As “primeiras palavras” dizem muito: “Esse é um pequeno livro com uma grande e ousada intenção: fazer-nos pensar sobre Paulo Freire”. Está na ordem do dia. Por que Paulo Freire incomoda tanto os novos donos do poder?
Chego ao livro de Rafael Guimaraens, “Fim de Linha, o crime do bonde”. Vou arrumar lugar na agenda para uma leitura tranquila. Quero me recostar e entrar na história. Seria ótimo se fosse deitado num pelego embaixo de um cinamomo. O mesmo vale para “O velho marinheiro, a história da vida do Almirante Tamandaré”, biografia feito romance escrita pelo vaqueano Alcy Cheuiche, mestre dessas narrativas que se alimentam de muita documentação e se realizam com as armas do contador de boas histórias.
Sigo em frente. A mesa é farta. Há alimento para o espírito por um bom tempo. Saudades daquela época em que podia ler um livro por dia. Nunca menos de 200 páginas. Era um compromisso. Um livro por dia e dois filmes por semana. Não havia Netflix. Era no cinema, com dinheiro curto. Abro o belo pequeno volume intitulado “Poemas”, edição bilíngue da obra de Eduardo Guimaraens, avô de Rafael. A edição traz os poemas no original, à mão, em francês, e a tradução para o português de Alcy Cheuiche e Lívia Petry Jahn.
Leio: “Nós somos loucos de amor,/os Poetas! Somos/Semelhantes a homens.../Sempre temos esta sede:/o desejo./O coração, que o sol cansa e/queima/se inclina/sobre a água da fonte de bordas/frescas e sombrias,/sobre o espelho da fonte/do amor/que, sobre a terra, nenhuma sede/humana/sacia/jamais!”. Quem não tem essa sede? Que não se deixa devorar pelo desejo? Quem não é poeta nos desvãos do seu eu profundo?
Desemboco em “Katia Suman e os diários secretos da Ipanema FM”. Ah, quem não se lembra? Eu era jovem e ficava deslumbrado com a voz aveludada de Katia falando de rock, de pop, de MPB e de outras coisas que me faziam correr para o Bom Fim em busca de parceiros de utopia. Que bela fornada de livros. Quero férias. Já! Preciso ler tudo isso da primeira à última linha. Se o fizer, ficarei mais culto, mais leve, mais feliz e certamente mais em paz comigo mesmo. Afinal, são livros que tratam do que ainda sentimos.