Outra história capilar
Telmo Flor é diretor de redação do Correio do Povo. Talento, humor e sensibilidade não lhe faltam. No texto que segue, mescla de crônica e de depoimento, dialoga com o texto deste blogueiro sobre corte de cabelo. Sensacional!
Cabelos. Genial! Um texto redentor! Isso é que é aprofundar uma questão fundamental para a humanidade (ou, pelo menos, para metade dela). Como dizem que acontece aos moribundos ou àqueles defrontados com momentos cruciais da existência, vi o filme da minha vida passando quando li a crônica. Jamais havia pensado que a resistência ao corte de cabelo poderia ser genética (ou cromossômica, essas coisas de X e Y). Resolvi um daqueles traumas de infância, lembrado pela família nos momentos mais constrangedores (uma namorada nova, um amigo, etc. que ficam ouvindo histórias da mãe da gente). Volta e meia alguém contava (mamãe ainda conta) que a minha ida ao barbeiro era atração no bairro, pela gritaria ("ai, vida" era meu mote, gritado a plenos pulmões em meio a lágrimas e cabelos picados escorrendo pelo rosto). Tanto foi que a família, envergonhada, transferiu a tarefa para uma parente cabeleireira. Já taludinho, no entanto, causei uma crise familiar ao procurar um barbeiro por conta própria. Choro e ranger de dentes; afinal não se despreza um parente assim tão cruelmente, principalmente em uma questão absolutamente essencial como o cabelo. Por longos anos, então, fui fiel ao Antônio, da travessa Acelino de Carvalho, enfrentando os olhares reprovadores da família, tendo como aliado silencioso apenas o meu pai, que por décadas se deslocava de onde estivesse morando (e foram muitos lugares) para cortar o cabelo em um mesmo barbeiro de uma cidade da região metropolitana na qual morara quando jovem. Foram tantas pressões que cheguei a ficar um tempo sem cortar o cabelo, rendendo comentário de uma candidata a sogra, que falou para a filha que o novo namorado era bem bonitinho e tal, "mas bem que podia cortar e pentear aquele cabelão". Acabei perdendo a linda gringa.
O Antônio, aliás, já era um barbeiro de transição, pois sabia que a modernidade no ramo estava ligada a alguns acessórios como os que você citou e, especialmente, a alguns trejeitos típicos que atraíam uma clientela mais descolada, trejeitos que ele só abandonava quando a barbearia fechava ou quando aparecia no salão sua mulher ou seus filhos, que tive o prazer de conhecer.
Mas o Antônio morreu, e senti-me órfão. Vaguei pela cidade e, tangido pela necessidade, acabei entrando em um desses ambientes pós-modernos que você tão bem descreveu. Desesperado pela pergunta irrespondível ("que corte vai ser"), e pensando já em postergar a próxima expedição a tal local de tortura, falei "máquina, bem baixinho". Foi a minha salvação, pois, desde então, já fui obrigado a trocar de cabeleireiro (aposentadoria, sumiço, etc.) umas três vezes - eles me abandonam, mas eu sou fiel sempre. Sento e digo a palavra mágica: "máquina". Descobri até os números da tal máquina e acrescento rápido: "quatro". Se bem que um me assustou perguntando se não podia ser quatro em cima e dois embaixo. Quando eu já levantava da cadeira, apavorado pela sugestão incompreensível ou desrespeitosa, o cara tratou de me acalmar, pois o “esteticista capilar” do lado, que já me conhecia de passagem, fez um sinal que devia indicar "tudo quatro". Acrescente-se que eu sou profundamente míope e, sem óculos, incompatíveis com a atividade em torno da minha cabeça, nunca posso ver no espelho o que os cabeleireiros estão fazendo comigo. Imagine meu pavor, somado à impossibilidade de ler alguma coisa que faça passar mais rápido aquele tempo angustiante.
Escrevi este e-mail para você como uma espécie de desabafo catártico, pois descobri (nunca é tarde) que não estou sozinho. Fui redimido. Também dei-me conta que tenho que ser solidário nesta questão e jamais permitirei, novamente, que alguém volte a lembrar que o meu filho, quando pequeno, chegou a paralisar as atividades de um supermercado da José de Alencar, onde havia, há quase 20 anos, um desses cabeleireiros moderninhos, com cadeira em formato de carrinho de fórmula 1. O Ricardo, vejo bem agora, só mantinha a honra da família ao espernear e gritar tanto contra a tortura que tentavam lhe aplicar que o gerente do supermercado, três caixas e duas dúzias de clientes subiram as escadas para ver quem estava tentando matar uma pobre criança, a tal ponto que o cabeleireiro, constrangido por não conseguir engabelar meu filho-herói, desistiu do corte e, ao que se sabe, largou a profissão.
Telmo