Juremir Machado da Silva

Outubro de 1930

Outubro de 1930

Águas de 1930

Quem foi o cérebro da Revolução de 1930, que completará 80 anos no próximo dia 3 de outubro? Osvaldo Aranha? João Neves da Fontoura? O mineiro Antônio Carlos? Depende. Osvaldo foi o homem da logística. João Neves cuidou da articulação com Minas Gerais e com a Paraíba. Antônio Carlos, jogado para escanteio na corrida presidencial, jogou no colo do Rio Grande do Sul a possibilidade de chegar ao poder antes reservada praticamente só a Minas e São Paulo. O cérebro da verdadeira revolução, no entanto, foi outro homem. Um homem que permaneceu silencioso no seu palácio, o Piratini, de onde governava o Rio Grande do Sul depois do fim do longo reinado de Borges Medeiros. O cérebro da revolução que começaria depois da posse e mudaria o Brasil de modo radical e drástico foi Getúlio Vargas.
Essa é a história que conto em “1930: águas da revolução”, que chega às livrarias nesta semana, numa parceria, na primeira tiragem, da Record-RS e da editora Record do Rio de Janeiro. Narro os antecedentes da revolução e a sua eclosão a partir dos relatos dos seus protagonistas, da cobertura do Correio do Povo e do depoimento de um alguém muito especial, Gabriel d’Ávila Flores, hoje com 98 anos de idade. Gabriel era sargento legalista e participou da resistência do 7º BC, no centro de Porto Alegre, aos rebeldes. Depois da rendição, seguiu a comitiva de Getúlio Vargas na direção do poder. É comovente seguir o fio das suas lembranças. Ele era um menino de 18 anos encontrando-se, sem saber, com a grande história. Não pensava nisso. Queria apenas ser feliz.
Mesmo os momentos históricos têm intervalos. No Paraná, esperando a grande batalha que não aconteceria, Getúlio Vargas arranjava ocupações, como se pode ler no seu diário: “Saio a passeio com o prefeito e alguns amigos, visito o hospital de caridade, converso com os feridos. Visito o coronel Vitor Batista. Recolho-me ao escurecer”. Mais: “À noite, o prefeito e suas filhas vêm procurar-me para ir ao cinema. Recolho-me à meia noite para escrever estas linhas. Amanhã, pela madrugada, devemos partir para Curitiba”. Chove muito naquele mês de outubro de espera e ansiedade. As diferenças entre João Neves e Getúlio Vargas já haviam surgido. Mergulho nessa relação intrincada, complexa, passional, poderosa, dura, entre dois amigos que muito se afastariam por algum tempo, mas, juntos, deram o grande salto pelo Brasil.
Uma frase de João Neves indica o abismo que surgiria entre ele e Getúlio: “Fui esquerdista até o dia da revolução”, revolução que “considerava necessária para pôr ordem na vida política do Brasil, para extinguir os abusos, para desmobilizar a legião dos funcionários inúteis, para extinguir o negocismo, para restabelecer a moralidade nos processos da administração, com o recurso a métodos heróicos incompatíveis com o regime legal burocrático e demorado”. Conquistado o poder, João Neves verá Getúlio impor a sua revolução. O choque será enorme, a rede de encontros, tramas e intrigas, fascinante. Meu livro poderia se chamar apenas “Getúlio e João”.