Outubro revolucionário
Outubro de 1930
Não foi só a Rússia que teve o seu outubro revolucionário. O Brasil também. O Rio Grande do Sul foi a locomotiva de uma transformação radical que estourou em 3 de outubro, há 80 anos. Dois dias antes, o jornal Correio do Povo festejava seus 35 anos de existência. O que estava realmente acontecendo naquele tempo? Quem eram os atores na cena nacional? O que se vivia no cotidiano? Tudo parece tão perto. E tão distante. A revolução começou na rua da Praia, estremeceu o centro de Porto Alegre, teve combates no morro do Menino Deus, agitou os gaúchos e sacudiu as cidades do interior do Estado.
No dia 4 de outubro, o Correio do Povo publicou uma manchete de capa realmente extraordinária: “Estourou, ontem, às 17 ½ hs. o esperado movimento revolucionário nesta capital”. Que tempos aqueles! A revolução era esperada, tramada no palácio do governo, onde Getúlio Vargas, chefe civil do movimento, recebia os conspiradores e movia silenciosamente as peças de um jogo cheio de perigos e jogadores. Osvaldo Aranha, João Neves da Fontoura, Flores da Cunha e muitos outros gaúchos moviam-se com peças fundamentais da operação. O Rio Grande do Sul, junto com a grande Minas Gerais e a pequena Paraíba, preparavam o golpe que acabaria com a República Velha e a política do “café com leite”. Como tudo isso foi orquestrado e vivido a cada dia? É o que eu conto no detalhe em “1930: águas da revolução” (Record).
Um guri de 18 anos estava lá, fardado como sargento, no 7º BC, um dos que mais resistiu aos revolucionários. Era Gabriel D’Ávila Flores. Hoje, aos 98 anos de idade, morando na João Pessoa, há poucos quadras do palco da sua primeira grande aventura militar, ele se lembra emocionado da juventude e da Revolução de 1930. O que ele pensava naqueles dias longínquos? Com o que sonhava? Como foi a luta? O que aconteceu mesmo naquele 3 de outubro que mudou para sempre a história do Brasil? Como Porto Alegre se preparou? Como acolheu o movimento? Como foi a tarde de 3 de outubro de 1930 na capital gaúcha? Em princípio, parecia um dia normal. O general Gil de Almeida, comandante da 3ª Região Militar, o homem que deveria ser preso no primeiro minuto da revolução, sumiu.
Onde estaria ele? Como pôr em prática o plano minuciosamente elaborado se o general não aparecesse a tempo de ser preso? Estaria a par de tudo? Fracassaria a revolução cuja data havia sido fixada depois de muitas idas e vindas e cujo horário teria de ser respeitado pelo país? Teria Gil de Almeida visto o que era para permanecer encoberto até o último instante? Os conspiradores tiveram algumas horas de profunda incerteza. A angústia aumentava com o passar dos minutos. Porto Alegre esperava a revolução como quem aguarda hoje um Gre-Nal decisivo. Teria Gil de Almeida enxergado longe? No Palácio Piratini, Getúlio Vargas começaria a escrever um diário. Ufa! Finalmente chegou aos chefes a mensagem de que Gil de Almeida estava de volta. Ao alcance das mãos conspiradoras. Havia ido ao oculista.