Filhas, netas e bisnetas me enviam cartas. Melhor, me mandam e-mails. Em nome de suas mães, avós e bisavós. Que gostam de mim. E são minhas leitoras. Mas não leitoras ocasionais, que isso não faz a felicidade de ninguém. Leitoras assíduas. Fãs. Admiradoras. Mulheres em busca de interação, diálogo, reflexão e poesia. Por que essas jovens não seguem o exemplo de quem as teve, criou e educou? Mistério. Ou seguem e não me contam por algum pudor? O aumento da expectativa média de vida feminina só tem me beneficiado como cronista. Uma filha me manda a correspondência de Dona Regina Pereira Figueiró, professora aposentada. Transcrevo-a aqui para mostrar que estou falando sério. Quase aos cem anos, ela me segue.
Peço que o leitor observe a clareza e a elegância do elogio. Nada daqueles aplausos tortos, feitos por ignorância, falta de jeito, grosseria ou ardil, que mais parecem bofetadas ou chutes nas canelas. Dona Regina flutua e, como se diz na universidade, situa claramente o seu lugar de fala: “Leio e admiro tuas crônicas. Às vezes, quando citas os filósofos, entendo o quanto teus estudos vão muito além dos meus! Minha escola é a vida - tenho 95 anos e sempre, como patriota, acompanho as diferentes fases do cenário político do país. Em todas as eleições, mais siglas surgem como salvadoras dos erros e contradições das demais. Faz oitenta anos que os fatos se repetem: negociatas, propinas, corrupção. Todos usando os cargos para seus próprios interesses”.
Irretocável.
Dona Regina não se limita a fazer o diagnóstico correto. Tem uma proposta: “Hoje eu te escrevo e, se achares que minha sugestão é válida, usa como desejares: PACTO PELO BEM DO BRASIL! Deixando a vaidade de lado procurem os presidenciáveis elaborar um projeto viável, sem falsas promessas, atendendo aos anseios do povo”. Não é uma boa pedida? Fico extasiado! Aos 95 anos de idade, Dona Regina observa a vida política brasileira e mantém a esperança em um país melhor. Depois de ler o e-mail de Dona Regina, adapto uma tirada modernista: muita vaidade e pouco civismo, os males do Brasil são! Os nossos políticos, de maneira geral, não todos, atrapalham-se na hora de separar interesse público de ambição pessoal.
Parece que é difícil. Afinal, somos um país de misturas, saladas, mesclas, feijoada e artimanhas. Tudo se confunde e nos confunde, principalmente quando a confusão pode ser rentável. Precisamos de mais mulheres centenárias para mudar este nosso mundo sem porteira. Sem querer colocar o meu interesse pessoal à frente dos benefícios públicos, eu sairia ganhando com isso. As mulheres experientes me compreendem e me amam. Não me gabo. Nem minto. São elas mesmas que dizem isso. Termino com outra mensagem que recebi, de Dona Rosa Santos: “Alô, sou uma das tuas gurias de mais de 60. Leio teus livros e diariamente tua coluna. Hoje te superaste, guri. Ótima. Parabéns. Que bom que tu és gaúcho. Abraços”. Ela falava de minha crônica intitulada “guri da campanha”.
Orgulho!