Juremir Machado da Silva

Pandemia num lugar fictício

Altas Pedras fingia viver na normalidade

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      Quando Altas Pedras se ferrou a elite estava jantando. Era um banquete que durava havia alguns séculos. O tempo não era contado por lá em dias, semanas ou meses. Só em feixes de cem anos. Eram mais de quinhentos de fartura para poucos e de miséria para muitos. Mas se continuava a crer, embora sem já sem dizer, que primeiro o bolo deveria crescer para depois ser dividido. Então veio a peste e os pobres ficaram mais pobres. Estranhamente alguns ricos ficavam mais ricos. Especialistas explicavam o fenômeno: toda crise gera oportunidade de negócios, diziam sem corar nem tropeçar nas palavras.

      Apregoou-se que a peste, ao menos, era democrática, ceifando aquinhoados e vulneráveis com a mesma sanha. Os dados, contudo, jamais confirmaram essa fake news. O mal matava mais os pobres e mais os negros. Seria o mal racista ou racista era a estrutura? Então se multiplicaram as estratégias para superar a tragédia. A principal era sair às ruas para enfrentar o inimigo de peito aberto como numa guerra sem quartel nem convenções. Em Altas Pedras alguns ainda sonhavam com a volta ao paraíso perdido de um regime militar que lhes parecia sinônimo de honestidade máxima porque a censura tratara de evitar que a sociedade se aborrecesse tomando conhecimento de casos de corrupção.

      Depois de cinco séculos de divisão se passou a denunciar uma polarização que seria inédita, embora fosse a de sempre com nomes diferentes. Altas Pedras estava no olho do furacão. O horto ardia, o sistema de saúde estava à beira do colapso, o desemprego crescia, a inflação disparava, a elite jantava. A prova de que tudo estava normal eram os jogos de rúgbi, paixão esportiva local, que não paravam. Jogadores adoeciam, curavam-se e voltavam. Alguns adoeciam de novo. A ordem era uma só: vida que segue. E seguia deixando um rastro de mortes, famílias enlutadas, lares destruídos, tristezas sem fim.

      Altas Pedras ficava a sudoeste de Palomas, entre o fim e o começo, num ponto em que os radares falhavam e as vacinas chegavam a conta-gotas. Ali todos se viam como sobreviventes. Enquanto uns enterravam os mortos, num trabalho desolador, outros aravam a terra implorando por bons frutos e por proteção contra a peste, que não cedia. Era um lugar duro para viver. Quando se achava que um homem cometera uma falta, ainda mais sendo negro, ele era obrigado a puxar carroça como se fosse um animal. Entendia-se que esse era um procedimento pedagógico exemplar. Se alguém protestava, era ignorado ou estimulado a se calar para não ter incômodos. Talvez por isso tantos fossem os silenciosos nessa terra de medo e recolhimento.

      Nunca se soube de lugar assim no mundo. Há quem diga que Altas Pedras nunca existiu. Nem todos os mapas assinalam o seu ponto geográfico preciso. As notícias que de lá se espalharam pelo planeta tornaram-se cada vez mais controvertidas. Conta-se até que algumas autoridades não acreditavam no poder das vacinas e achavam que só o tempo acabaria com o vírus. O tempo passava. O horror continuava. Para mostrar que tudo estava bem, Altas Pedras aceitou realizar um torneio internacional. Afinal, o Japão mantinha os seus jogos olímpicos.