Juremir Machado da Silva

Papo com leitores sobre usos da língua

Papo com leitores sobre usos da língua

Juremir!!
Vc. é a pessoa mais inteligente, sensata , coerente, talentosa, autentica, corajosa e brilhante que anda aqui pelos pagos. Escreva sempre mais!!!
Sou sua mais ardorosa fã.
Felicidades para vc. e sua familia
Abraços
HELÔ


Sua forma de pensar e criticar o q esta acontecendo de errado no nosso RS e Brasil. Sou servidor Publico do estado (Caro Juremir, primeiro queria dizer que sou leitor de suas colunas no Correio do Povo e admiro muito Brigada Militar), e hoje vemos a luta de nossos professores, policiais Civis e outras classes por um salario digno. Como todos sabem nós praças (sgts, sd,) não podemos fazer greve pelo fato de ser crime militar ou fazer qualqeur tipo de manifestação por medo de sofrer perseguição de superiores hierarquicos. Como todos sabem, e fecham os olhos a nossa Brigada é a Policia mais mau paga do BRASIL. Infelizmente a tendencia é piorar pelo fato de nosso governador não dar 1 real de aumento para a classe, aumentar a aliquota do IPE e a grande maioria estar perdendo a bolsa formação (443, 00) onde esse valor fara muita falta para nós. Então caro juremir queria q o senhor falasse em sua coluna alguma coisa do genero para nos ajudar ja q a grnade maioria dos Brigadianos esta quebrado financeiramente arriscando suas vidas nos bicos e enquanto isso vendo os oficiais com salarios q nem preciso dizer. Abraço
Guilherme Brendler

Caro Juremir
Parabéns pela sua atitude, primeiro de tudo.
Depois, quero dizer que você está fazendo, na sua coluna de hoje no Correio, um rudimento de ensaio linguístico (e rudimento nesse contexto não é um xingamento, mas um elogio grande).
Por quê? Explico-me. Você tem razão ao dizer que alguma lógica, alguma não-arbitrariedade tem que haver na gramática. Os estudiosos (não os que você citou, que tratam da questão social da língua, mas outros, os linguistas mesmo que estudam o sistema linguístico) observam as línguas comparadas umas a outras e longitudinalmente, isto é, uma língua compara com ela mesma em diferentes épocas. Eis que:
- Há características universais nas línguas que não são opcionais. Por exemplo, as funções sujeito/verbo/objeto; a bipolaridade dos pronomes eu/tu e eu-tu/ele, as marcações de tempo, entre outras.
- Há características que se desenvolvem em determinadas línguas, funcionam por um tempo, depois se extinguem (ou passam a existir), configurando o que seria "opcional", como os traços redundantes.
A desinência número-pessoa no verbo, em português assim como em francês, é um traço redundante, uma vez que o pronome pessoal já marca a pessoa e o número. No francês, você sabe muito melhor do que eu, a desinência número-pessoa (aquela do final do verbo) não é pronunciada em muitos casos (e ai de quem as pronuncie, mas isso não deve ter sido sempre assim...). No inglês, salvo a "sobrevivente" 3ª pessoa do plural no presente (he takes) não existe desinência número-pessoa, e a presença do sujeito é obrigatória na frase, como no francês (mas não no português).
Tomemos as três línguas - o português que mantém a desinência tanto na escrita quanto na fala, o francês que, em muitos casos, a aboliu na fala mas a mantém na escrita, e o inglês que praticamente já a aboliu tanto na fala quanto na escrita). Não podemos dizer, atribuindo um juízo de valor, que uma língua está mais "avançada" ou mais "evoluída" que outra. A "evolução" das línguas nem sempre leva para o mesmo caminho, porque as línguas são autônomas para produzir sentido. Mas a comparação entre elas nos permite ter a noção do que não pode ser mudado e do que eventualmente pode cair em desuso. As características universais e perenes não podem ser mudadas, Por outro lado, nas línguas há marcas que são, sim, opcionais, como os traços redundantes - várias marcas no enunciado para dar a mesma informação - e independentemente de todo esforço dos que não aceitam as mudanças na língua, é impossível prever seu futuro, é impossível dizer se as características estilísticas e opcionais serão alteradas ou não. Mas sempre há a possibilidade. Se daqui a poucas gerações, os falantes não estigmatizarem "nós pega", o que hoje é um "erro" crasso passará a ser aceito como para nós já o são "você" e "tu foi", que também já foram meramente erros. Os linguistas, conscientes dessa organicidade da língua, com seu "ar blasé", pode ser, acostumam-se a não fazer juízos de valor. O que é do interior, do funcionamento próprio da língua não nos é estranho.
Para complementar, os estudos linguísticos são bem aprofundados, são cientificamente legítimos (e auto-legitimáveis, quando os consideramos práticas discursivas, como todas as demais ciências não-positivas), e trazem informações quase infindáveis do passado das línguas, das comparações entre elas, e do que efetivamente pode se chamar "conhecimento sobre língua". A gramática estilística é um capítulo modesto nesse livro gigante de vários tomos. Linguistas estudam muito e por muito tempo (daí vem um jornalista do Pioneiro dizer que "os linguistas não vão se fazer entender", naturalmente que não em 5 minutos... não num único artigo; e um "escritor", raso que nem um pires, da Zero Hora vem dizer que uma doutora já aposentada pela UFRGS mas ainda em atividade na Unisinos não sabe do que está falando!) Há sempre uma outra hipótese a ser considerada a respeito do que sabemos e do que queremos saber sobre língua - e essa atitude de passar por cima de uma área de conhecimento, que já é um terreno de debate delicado, provocou fúria na minha turma.
Sugiro que você nem se aprofunde mais no assunto, você já foi "longe demais". Qual o risco existente em se aprofundar em questões de linguagem? Se você pensou que eu me referia ao fato de existir a possibilidade de você refutar os argumentos que você teve de ler e com os quais você não concordava, você está enganado. Isso, nas ciências da linguagem, é banal. Existem teorias que são diametralmente opostas, e uma não consegue destruir a outra porque, quando olhadas de seu interior, ambas fazem sentido. É o problema da metalinguagem, autorreferencialidade, do objeto linguagem construído na própria linguagem. O risco a que me refiro é o de você abandonar outros assuntos para se dedicar somente à linguagem. Não seria o primeiro pensador na história do mundo.
Da minha parte você seria bem-vindo.
Abraço,
Luis Felipe Rhoden Freitas