Papo de futebol
O futebol absorve tudo.
Esta semana foi do futebol.
Uma semana que entrará para a história como a semana do entrega ou não entrega.
Eu fui a favor do entrega e do não entrega.
Como todo torcedor, tenho duas éticas.
Uma para o meu time e outra para o adversário.
O futebol é a cara do Brasil.
Quando eu era repórter esportivo, vivi uma experiência fantástica. Durante uma semana, só falamos de um assunto absolutamente fascinante:
Segunda-feira: Astengo está machucado.
Terça-feira: Astengo não deve jogar no domingo.
Quarta-feira: Astengo fora.
Quinta-feira: Astengo pode ser liberado.
Sexta-feira: Astengo ainda é dúvida.
Sábado: Astengo deve jogar.
Domingo: Dia para rever Astengo.
Segunda-feira: Astengo não jogou.
Fantástico.
Agora, tivemos algo assim:
Segunda: Grêmio vai entregar.
Terça: Grêmio não vai entregar.
Quarta: O Grêmio não tem o que entregar.
Quinta: Grêmio entregará discretamente.
Sexta: Entregar ou não entregar, eis a questão.
Sábado: entrega, entrega.
Domingo: entregará ou não entregará.
Uma vez, quando eu era repórter no Olímpico, fizemos uma pequena reunião de setoristas de todos os veículos. Os nossos editores queriam uma notícia. Era época de férias e a seca de novidades era total. Não podíamos voltar para as redações de mãos vazias. No Rio de Janeiro, algum tempo antes, um cara chamado Vivinho havia marcado um gol de placa. Combinamos que o Grêmio estaria interessado em Vivinho. Fomos até entrevistas o vice-presidente de futebol Raul Régis de Freitas Lima:
– É aí, Dr. Raul Régis, Vivinho interessa?
– É um bom jogador...
Demos todas a informação: Vivinho nos planos do Grêmio. Nossos editores nos deixaram em paz. Passamos um final de semana tranquilos. Na segunda-feira, voltamos a conversar com Raul Régis:
– Vivinho vem ou não vem?
– Vivinho está fora dos nossos planos.
Vivinho já era um assunto mortinho.
O entrega ou não entrega vai morrer como Vivinho e a lesão do Astengo. Por uma semana, deu o que falar.
Cumpriu a principal função do futebol:
Dar o que falar.