Juremir Machado da Silva

Paraíso e inferno

Paraíso e inferno

Contava-se em cafés de Montmartre, em algum momento do século XIX, que Charles Baudelaire queria descobrir, como se fosse um cientista da alma, a diferença sensível entre paraíso e inferno.
Para isso usaria o corpo como extensão da mente.
Na busca das sensações do inferno, decidou-se à poesia.
Sofreu como um cão danado.
Ao final de algumas noites, tinha os dedos lacerados.
Seus leitores ainda alcançam o paraíso.
Na busca das sensações do paraíso, dedicou-se ao consumo de ópio e às prostitutas.
Em certas épocas, mais prostitutas do que ópio.
O sexo como ópio do poeta.
Em outras, fumar transformava seu sexo numa papoula.
Foi visto errando como um cão danado certo de ter, muitas vezes, alcançado o sublime.
Seus biógrafos garantem que sua vida foi infernal.
No seu despespero, ele produziu uma "alquimia da dor":
Par toi je change l’or en fer
Et le paradis en enfer;
(Por ti transformo o ouro em ferro
e o paraíso em inferno).