Souvenir
Deixamos para trás os caules,
As lagoas, pátios, roldanas,
Os arames, os poços, badanas.
Sobre o bocal dorme o balde,
Alheio à porta que ainda bate.
Deixamos atrás de nós as doces figueiras.
Uma terra de areia e de manhãs dispostas.
Bem longe, metálico, um cachorrinho late.
Mas o silêncio recai no entorpecimento.
Agora o oceano se esconde do sol
E os rastros se perdem nas ondas.
Pela estrada ocre, casas e vales,
Vales e casas, animais no pasto,
Eucaliptos, florestas, videiras,
Olhos que mal dão para o gasto.
Paredes caiadas, ou um girassol.
Cacos queimados de porcelana azul,
Junto às rugas secas do grande umbu,
Já fazem relembrar do esquecimento,
Daquilo que não fomos, nunca, eu e tu.
Enquanto assim nos afastamos do sul,
Por um novo caminho de veias expostas,
Onde os bois exibem suas enormes panças,
E os pássaros ensaiam esquisitas danças,
Uma criança com um vidro fosco
Espia do outro lado dos trilhos.
Através de uma janela sem brilho,
A mãe ralha com o seu filho,
Um homem esculpe um boneco tosco,
A tarde quente se espreguiça como um cão.
Compro um souvenir na loja de lembranças.