Para quem não me leu sobre Paul
Não a Paul McCartney
Disse outro dia no meu twitter: estou numa fase pernóstica e introspectiva. Não fui ao almoço de intelectuais com o prêmio Nobel da literatura Mario Vargas Llosa, mesmo sendo um admirador dos seus livros (as ideias políticas dele não são grande coisa). Recusei um convite, com tudo pago, para uma reunião de trabalho (conselho de redação de uma prestigiosa revista científica) em Paris. Sou um baita marrento. O Romário é fichinha perto de mim. Na verdade, estou numa fase irascível, selvagem e contundente. Não cedo. Poderoso é quem consegue recusar o que parece irrecusável. Dizer não a Ana Paula Arósio, Larissa Riquelme e Cléo Pires na mesma noite, numa mesma festa, sem vacilar nem tremer.
Corneille, o fundador da tragédia francesa, levou a renúncia ao ponto culminante da existência. Grande não é o imperador que pune o inimigo, mas o que perdoa. Corneille chegou a ser o poeta e dramaturgo oficial, o preferido de Richelieu. Caiu em desgraça. Só não morreu na miséria porque Luís XIV aceitou pagar-lhe uma pensão. Deveria ter recusado? O estômago dele falou mais alto. Nenhum político brasileiro atual entenderia Corneille. Não dá para imaginar um peemedebista lendo Corneille. Nem o “poeta” Sarney. O que dizer de Dilma e Serra mudando seus pontos de vista para adular os eleitores? Para Corneille a convicção profunda era irredutível ao interesse imediato. Corneille teria de entrar no PSOL? Corneille fracassou tanto e levou tanto pau que passou alguns anos sem escrever. Era chamado de medíocre real.
Tudo isso para dizer que não irei ao show de Paul McCartney. Imagino a tristeza dele quando souber disso. Vir a Porto Alegre e não contar comigo é como ir a Palomas e não falar com o cego Borges. De Roma, não falarei. Detesto clichês. Não irei por várias razões. A principal delas é uma total falta de razão para ir. Não ouvi Beatles quando era adolescente. Ouvi José Mendes, Beethoven, Belchior, Chico Buarque, Amado Batista, Antônio Marcos, Jimi Hendrix e a doida Janis Joplin. Já escrevi muitas vezes que isso decidiu o meu destino. Nunca serei como qualquer homem normal da minha classe social e da minha profissão. Tarde demais para ouvir McCartney. Ainda mais num estádio de futebol. Eu teria de vê-lo de binóculo. Já é assim que o vejo. Muito distante.
Não entendo como a Fifa liberou o Beira-Rio para o show do Paul McCartney. Só Brasil e Argentina reuniriam mais público do que o show do ex-Beatles. Alguém consegue imaginar um gaúcho comprando ingresso para Coréia do Norte e Japão? Acho que essa honra deveria ser concedida ao Grêmio do Humaitá. Enfim, Paul McCartney não me verá. É definitivo. Não adianta insistir. É tarde para ele também. Seu tempo já passou. Ainda se fosse Lady Gaga. Ou a mulher-melancia. Tenho mais o que fazer. Se fosse ao show, seria para tuítar: chegando ao show de Paul McCartney. Mesmo sem formol, ele está bem conservado. Esperando a descida do Lennon. Se fosse pedir um autografo a ele, diria: “Pô, tio, rabisca aí. Valeu!”