Paris, cidade poesia
capa

Paris, cidade poesia

Capital francesa sempre abrigou poetas

publicidade

Em cada canto de Paris, uma frase: aquin viveu Rimbaud, Baudelaire, etc.

A relação do homem com a poesia, segundo uma história secreta dos poetas, tem a ver com a memória e com a sua perda. Em algum momento, poetas escreveram para lembrar ou para esquecer o que não paravam de lembrar. Depois, possivelmente para esquecer o que pesava como uma biografia maldita. Muitos valorizaram a rima com estratégia mnemônica. Outros, buscaram somente a produção de imagens capazes de “desocultar” sentidos encobertos pela passagem do tempo. Na época da memória artificial, quando se carrega a biblioteca de Alexandria no bolso, a poesia estaria morta? Ou, ao contrário, mais viva do que nunca como lembrança da morte do homem? Em Paris, a poesia assume várias formas, inclusive a conversa de café.

 

 

A minha grande obsessão foi a tarde.

Alguns buscam compreender a noite.

Há quem renasça a cada alvorecer.

 

Eu sempre quis decifrar o enigma da tarde.

A tarde que vejo da janela como um silêncio.

São paredes amarelas, cinzas, até vermelhas.

 

Olhos enfileirados que parecem cerrados,

Casas de incontáveis aberturas e telhas,

Telhados que fitam o céu insolentes.

 

Nas tardes, pelas ruas, vi homens, ambulâncias e cães,

Mulheres lentas e sérias puxando carrinhos com cartões,

Senhoras elegantes ou finas desaparecendo nas esquinas

E ruas magras espiralando-se como veredas nos sertões.

 

Na vida, compreendi muitos mistérios.

Entendi, por exemplo, o valor do Pi.

Aprendi a disposição da tabela periódica,

Percebi a relação do quadrado da hipotenusa.

 

Só não revelei ainda da tarde os critérios,

Nem sequer a biografia do mendigo que ri.

Menos ainda a história da puta metódica,

A bela, a infeliz, a desdentada musa.

 

A tarde é um pouco de tudo isso,

A noite sem negrume e sem viço,

Intervalo entre o fim e o tropeço.

 

A hora do lobo dormir à sombra

E da árvore se recolher para beber.

Ou dos poetas se encontrarem nos cafés para sonhar.

*

Na foto, com o escritor Vincent Petitet para uma conversa sobre literatura na França.