Partir ou ficar?
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Partir ou ficar?

Crônica do nosso tempo

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Gaúchos dividem-se em muitas categorias: chimangos e maragatos, colorados e gremistas, que usam ou não pilcha, que tomam ou não mate, que falam mate ou chimarrão, que querem ir embora para Portugal ou voltar à cidade natal. Encontro todo dia alguém que me diz: “Vendi tudo. Vou embora pra Portugal”. Eu me sinto na contramão: quero viver em Palomas. Já escrevi sobre isso. Volto ao assunto devido à proporção tomada pelo fenômeno. Pessoas de mais de 50 anos liquidam tudo e se mandam. Fico apavorado: que vão fazer num país estrangeiro, frio, caro, sem picanha?

      Já morei no exterior. Vivi de 1991 a 1995 na França. Depois, voltei em 1997 para um período mais curto. Passei todo o ano de 1998 em Paris. Faz 30 anos que vou todo ano à Europa. Eu não gostaria de passar minha vida por lá. Falta algo. Falta o nosso barulho, o nosso caos, o nosso humor, os nossos aromas, as nossas piadas, os nossos afetos, a nossa loucura. Tenho a minha hipótese para explicar a obsessão por Portugal: quando todas as utopias se esgotam, com filhos criados, apostas vencidas ou fracassadas, as pessoas, fustigadas pelo desejo de novidade, encontram na partida uma nova razão de viver. Uma aventura. Deixam para trás filhos, netos, amigos e até namorados, maridos, companheiros. Partir se impõe.

      Faço parte do grupo que sonha em fechar o ciclo voltando para casa. Não quero novidades. Sonho com os perfumes da minha infância: cheiro de figo maduro, de goiaba no pé, de flores do campo, de vento úmido, de terra molhada, de doces fervendo no tacho, cheiro de manhã na campanha, orvalho, pitanga, maracujá, mato. Lembro-me dos meses que passei em Berlim no começo dos anos 1990. Era inverno rigoroso. Temperaturas baixíssimas. Muita neve. Era lindo. Só não era o meu lugar. Sou localista, nativista, escravo de minhas lembranças, raízes, imagens arquivadas, imaginários.

      Quanto mais o tempo passa, mais quero estar perto dos meus. Começo a repudiar as viagens longas. Aeroportos, hotéis, línguas desconhecidas, tudo isso me cansa. Quero cada vez mais a beleza das paisagens armazenadas no coração, a alegria dos encontros repetidos, o toque das velhas mãos amigas, a força dos sorrisos que iluminam as manhãs nubladas, a generosidade das sombras das figueiras e das mangueiras, a poesia dos jacarandás e dos ipês floridos, a solidão dos cinamomos, a chuva que vem do Uruguai, as coxilhas ondulando enquanto mergulho nesse passado que não passa. Não condeno quem parte. Quem sou eu! Expresso meu estarrecimento.

      Só não garanto que um dia voltarei a Palomas porque Porto Alegre se entranha cada vez mais no meu coração. Creio que terminarei dividido. Há certas manhãs ensolaradas em que lamento não poder correr para esses campos dos meus mais tenros anos. Como poderia Portugal me dar sentimentos assim? Como poderia a Europa mexer com meus afetos dessa maneira? No exterior, eu seria um homem infeliz, morto de saudade, contando os dias para voltar, indiferente aos qualificados serviços disponíveis no cotidiano. Definitivamente estou na contramão: quero voltar para casa.