Paulinho da Viola no Clube dos 70
Paulinho da Viola fará 70 anos no dia 12 de novembro deste ano. É mais um do Clube dos 70. Está em forma. O seu show no Araújo Vianna, em Porto Alegre, confirmou uma boa novidade e atualizou uma velha verdade: a vida cultural está de volta à noite do Bom Fim (nada como e ir e vir de um show caminhando pela Redenção e sentindo o perfume da natureza) e Paulinho continua a ser um mestre do samba e do choro. Sempre chama a atenção no desempenho dele a naturalidade. Canta sem qualquer esforço. O mais incrível é que, em entrevista, declarou não se sentir cantor. Acha que não atingiu esse nível. Vê-se como quem apenas apresenta uma composição tentando ser o mais afinado possível. Uau!
A arte de Paulinho da Viola expressa uma espécie de sabedoria serena, uma mistura de doce melancolia e de suave alegria. Não chega a ser triste, mas também não é uma explosão de otimismo. Não tem a predileção pela tragédia de alguns compositores nem o espírito positivo ingênuo quase irritante de outros. Joga no meio, num balanço curioso, mesclando sutileza, distanciamento, sofisticação e traços populares. Mistura samba e toques de música erudita. Há quem considere essa musicalidade meio fria, afastada do barroquismo mais ao gosto brasileiro. Ela não é, porém, de uma frieza antibarroca. Tem estilo próprio, impressão digital, experimentação, inventividade, tom cristalino. Paulinho é um poeta.
Se alguém deseja saber a diferença entre samba e pagode, basta ouvir Paulinho da Viola. Há na sua arte como que uma necessidade de discrição. Quase impossível encontrar nela uma imagem apelativa. Paradoxalmente o seu ritmo pode se tornar frenético e incendiar corpos e imaginações. A minha paixão por Paulinho da Viola cresceu tanto com o passar dos anos que perdi o último capítulo de “Avenida Brasil” para ir vê-lo. Não fiquei sabendo na hora quem matou Max, embora já estivesse informado, mas soube, mais uma vez, com toda a certeza, que Paulinho da Viola é imortal. Um imortal do samba e do choro. Genial.