Um intelectual deve considerar todas as hipóteses em jogo. Afinal, o jogo nunca está definitivamente jogado, sendo decisivo avaliar novos e inesperados lances, como a intervenção de uma gandula ágil e esbelta na cobrança de um lateral.
Torna-se ainda necessários abrir a guarda quando se encontra interlocutores admiráveis.
Eu admiro os deputados do PCdoB Raul Carrion e Manuela D"Ávila.
Assim como admiro a senadora Ana Amélia Lemos.
No Esfera Pública, programa da Rádio Guaíba que apresento com Taline Oppitz, discuti com Raul e Manuela, em dias diferentes, sobre um mesmo assunto: a possível aliança do PCdoB com o PP para a eleição de Porto Alegre.
Saiu faísca.
Raul e Manuela são rápidos no gatilho, firmes e excelentes argumentadores.
Se precisar, praticam um método agressivo para emparedar o oponente: a inversão do ônus da argumentação.
O tom sobe rapidamente e os golpes são cada vez mais impiedosos.
O PT praticou a política de alianças indistintas em nível federal. Essa foi uma das grandes contribuições de Lula para o fim das ideologias estanques como limite ao exercício do poder compartilhado em benefício do seu partido. Ainda não se viu, em grande escala, em dimensão macro, o lulismo aceitar o contrário e servir de vagão a alguma locomotiva.
Só não se aliou, entre os mais conhecidos, com Dem e PSDB, que eu saiba.
O PCdoB, na melhor tradição marxista, não faz as coisas sem uma teoria, uma tese, um lance intelectual.
A tese de Carrion é: eleição não é momento de ideologia. Mas de política.
Na hipótese irônica, eu diria: uau!
Na hipótese satírica, eu exclamaria: contorcionismo eleitoral.
Na hipótese distanciada, tenho de me perguntar: o que isso significa?
Que o PCdoB finalmente aderiu à tese de Francis Fukuyama sobre o fim das ideologias?
O fim das ideologias na eleição.
Onde terminam as ideologias? Nas campanhas eleitorais.
A eleição como limite da ação ideológica.
Não seria a eleição o momento supremo da expressão ideológica?
Ou, como diz a direita (com o perdão dessa expressão ideológica), ideologia é coisa do passado, anacronismo (coisa de esquerda velha ou da velha esquerda) e o que importa mesmo é o programático (que ninguém quer confundir com pragmático)?
PP (ex-Arena) e PCdoB (ex-inimigo da Arena) são vistos como partidos ideológicos.
Volta e meia dão lições de moral ideológica: um contra o ideologismo, o outro a favor de clareza ideológica.
Isso não valeria em eleições municipais?
Batemos boca, Manuela e eu, por causa disso.
Eu tenho dificuldade para aceitar alianças de extremos que se combatem historicamente.
Se a ideologia não vale na hora da eleição, vale quando?
Para eleger o presidente do partido? O síndico do edifício?
Lula fez alianças "programáticas" para a eleição presidencial.
Como não se trata de decidir entre capitalismo e comunismo, de mudança de modo de produção, só resta o programático?
A ideologia não é uma forma de expressar diferenças programáticas?
Como tenho muito respeito por Manuela, sou obrigado a refletir:
– hipótese da suspeita: ideologia não valer em eleição é discurso de campanha.
– hipótese rasteira: é oportunismo.
– hipótese cautelosa: e se Manuela tiver razão?
Nesse caso, como fator complicador, pergunto, sem qualquer consideração a acordos, promessas ou compromissos verbais ou não: o PCdoB será capaz de apoiar Ana Amélia Lemos (PP) para o governo do Estado? Seria capaz, colocando-se acima de ideologias no momento eleitoral do apagamento das ideologias, de apoiar Ana Amélia Lemos para a prefeitura de Porto Alegre, tendo a alternativa PT, se ela fosse candidata hoje? Sei, não há "se" nisso tudo. O "se" é uma hipótese abortada.
A questão, porém, é imaginar a possibilidade de reciprocidade programática e sem preconceitos ideológicos. Em outras palavras, programático seria quando A aceita ser apoiado por B e aceitaria apoiar B. O resto seria oportunismo.
Hipótese incisiva: e se a aliança entre PP e PCdoB representar um amadurecimento, um sintoma do bom declíno das ideologias dogmáticas? Isso permitirá o retorno das ideologias em outros momentos? Para quê? Com que objetivo?
Ana Amélia, mais jornalista do que mulher de partido, parece apostar em pessoas (eu sou assim, até certo ponto, eu e toda a torcida do Inter, mais importante que a do Flamengo). Gosta de Manuela, crê no seu dinamismo, reconhece-se em Manuela como mulher dinâmica, ativa, agitadora, mobilizadora, idealista. Não está nem aí para ideologias?
Imaginava-se que ideologias servissem para sinalizar diferenças entre partidos aplicáveis aos seus governos.
Não é mais assim? Nunca foi assim? Nunca será assim?
Na eleição francesa, ideologia não tem a ver com comunismo versus capitalismo, mas com o tratamento de questões práticas da vida dos cidadãos dentro do sistema vigente. É um sinalizador de visão de mundo e de gestão a partir desse modo de ver.
Fica o PCdoB impossibilitado de qualquer crítica futura de cunho ideológico a alianças "destoantes"?
Poderá, por exemplar, criticar, digamos, o PT por alguma aliança futura com Dem e PSDB?
Dado que não se tem o menor sinal de uma possibilidade de implantação do comunismo no Brasil, qual a dimensão real do comunismo do PCdoB na sua atuação política cotidiana? É só uma imagem de marca? Um imaginário? Um discurso?
Ou a longa evolução para o comunismo passa por uma aliança entre PP e PCdoB em Porto Alegre?
Ou existem situações frequentes em que a ideologia entra em campo na administração de uma cidade, Estado, país?
O código florestal deveria opor PP e PCdoB? Não opôs. Algo errado?
Ocupações/invasões de terra devem opor PP e PCdoB?
Fazer referência a isso é rebaixar o debate?
Estará o PCdoB confessando, enfim, que também acredita no fim das ideologias?
Ou, estrategicamente, dando mais um passo atrás para dar dois à frente?
Ou, maduramente, indicando que as ideologias, embora importantes, têm limites municipais?
Os políticos defendem partidos fortes e querem voto em lista fechada (só eles querem isso).
Quando todos os partidos desejam algo, isso só pode ser ruim para o eleitor.
O que faz um partido forte? Não seria a coerência ideológica?
Ideologia, numa cidade, significa para alguns a abordagem das questões cotidianas: a orla do rio deve ser de todos ou de empreendimentos imobiliários para poucos? Deve-se ter mais ciclovias? Ou valorizar mais o automóvel? Os camelôs devem ser segregados? Investimentos devem ser feitos por obrigação ou a partir de algum pretexto como a Copa do Mundo?
Enfim, ideologia era também uma maneira de indicar como cada um se posiciona em relação aos temas essenciais da vida em comum, da organização da pólis, das escolhas de cada dia quanto ao dia seguinte, uma visão de mundo organizadora.
Sinal dos tempos. Manuela e Ana Amélia, mulheres de gerações, formações e ideologias diferentes, parecem unidas por algo bem acima das ideologias. O quê? A conveniência para o PCdoB? Um cálculo de Ana Amélia? O idealismo?
De repente, cobrar coerência ideológica virou sintoma de ideologismo, um pecado dos anacrônicos, dos rígidos, dos engessados, dos utopicamente ultrapassados, dos simplistas, rasteiros e rabugentos. Por que se cobra mais do PCdoB e do PP essa tal coerência ideológica? Porque eles falam mais em ideologia do que outros, especialmente o PCdoB?
No Brasil das alianças liberadas, o PV reservou salão para casar com o PDT. Recebeu um telefonema do PT e trocou de noivo.
Como dote, ganhou lugar na chapa para o vice-prefeito.
Aliança programática? Não havia ideologia em discussão.
No primeiro turno não deveria todo partido ter candidato próprio para mostrar sua ideologia, sua visão de mundo, de cidade, em lugar de fazer alianças que, a olho nu, parecem trocar cargos pela certeza da chegada ao poder?
Raul Carrion inovou com a sua tese do fim (limite) das ideologias nas eleições.
Essa é a diferença entre o senso comum antiquado (eu), que vê eleição como palco de disputas ideológicas, e quem pensa à frente: a eleição com espaço da política (que não deve ser confundida com ideologia).
Falta convencer uma fatia dos eleitores.
Confesso que preciso de tempo para pensar quem está certo.
Digamos, uns dez anos.
Mas ganhei o dia.
Fui obrigado a pensar.
Algo que faço raramente.
Resta uma hipótese: não se trata de fim das ideologias, mas de suspensão temporária das ideologias durante o período eleitoral.
Se tudo der certo, a suspensão deverá se estender ao mandato obtido.
Pesquisa interativa (tudo blog deve ter uma):
1 – As ideologias acabaram?
2) As ideologias estão vivas, mas devem ser suspensas durante o período eleitoral?
3) Eu sou um imbecil que nada de entende de ideologias?
Escolho a terceira alternativa.