Juremir Machado da Silva

Pedra no sapato

Hoje acordei com uma pedra no sapato. Olhei-me no espelho e constatei: não sou eu. Escutei Rachmaninov no youtube e José Mendes num CD que guardo no fundo de uma gaveta coberto com uma reprodução da clássica imagem de Charles Baudelaire. Saí pela rua inventariando: qual é o problema? Sempre há um problema. Sou cada vez mais poeta num mundo de prosa, pós-moderno num imaginário que cultua sua modernidade defunta, antigo num imaginário do novo, anacrônico num tempo conferido segundo a segundo, dissonante em espaços que tendem para a padronização, fanático por temperaturas naturais numa época de climatização artificial. Sou um menino dos anos 1970, adepto do 4-3-3 ortodoxo, numa era de adultos precoces.

Tenho andado neste mundo como um fantasma de botas. Trago os joelhos protegidos e a alma desguarnecida para enfrentar assaltos e sonhos. Ando intolerante, rabugento, de dedo em riste, tendo ataques, tentando impor convicções que não tenho, cada vez mais decidido a morrer nos campos de batalha para não perecer por falta de opinião. A passagem do tempo nos torna inconvenientes por falta de paciência para ouvir. Vem essa vontade radical de praticar uma sinceridade suicida que só serve para nos incendiar no meio das confusões. A educação é o processo pelo qual aprendemos a omitir ou a mentir pelo bem da sociedade. Depois, enterradas as ilusões, ressurge a incontinência adolescente já sem a crença no melhor dos mundos.

Que conversa é essa? É a que tenho comigo quando olho a migração das nuvens rumo à dissipação. Gosto de palavras assim, dessas que jazem no dicionário como num túmulo e florescem na imaginação como essas rosas que não se explicam nem exalam perfume. Quando eu digo que não me reconheci, estou provocando o leitor a se olhar no espelho. Uns se indignam com a violência; outros, com a desigualdade. Poucos com a violência e a desigualdade. Raros com a violência como consequência da desigualdade. Para uns só existe o indivíduo. Para outros, só a sociedade. Uns querem Estado mínimo. Outros, Estado absolutista. Todos morrem de certezas.

E eu, o que quero? Faz tempo que eu digo. É meu refrão. Quero que o Brasil se transforme numa imensa Suécia. Uma Suécia tropical com samba, funk, carnaval, caipirinha, muita praia, sol, dribles desconcertantes, descontração, paridade de gênero, igualdade social, Estado do Bem-Estar, livre iniciativa sólida e produtiva, políticos sem mordomias, empresários sem tetas e diferenças respeitadas e limitadas para não se tornarem privilégios de classe, gênero, raça ou ideologia. Uns querem uma parte da Suécia, não a outra. Eu quero as duas. Sonho como uma República Federativa Sueca Tropical do Brasil. Uma Suécia afrodescendente.

Como está demorando, eu me aborreço, brigo, esbravejo, perco a calma, pago mico e entrego os pontos. Feito Isaías Caminha, meu ídolo, personagem fabuloso de Lima Barreto, penso em bater em retirada. Viver na contramão é menos perigoso que desconfortável. Olho todos vindo na direção contrária e pergunto: por que não dão um cavalo de pau? Por que se comportam como manada? Por que não se rebelam? Como não obtenho resposta, ataco. Parto para cima. Sempre acabo atropelado. Que fazer? O que dizer sobre a violência que avança? Um amigo assaltado às três da tarde numa rua movimentada chegando para jogar futebol? O segundo atentado à bala contra petistas em um mês! Jornalistas intimidados na hora de trabalhar. A mídia martelando que a economia melhorou e o desemprego aumentando. A Suécia é longe daqui.