Fiquei fascinado com essa história da escritora gaúcha que ficou pelada no Peru contra a pirataria na internet.
Ficar pelado no Peru é uma associação televisiva: simples, direta, polissêmica (duplo sentido).
Se não estivesse tão ocupado, eu faria mais um rap, o rap da pelada no Peru.
Algo assim:
A escritora ficou pelada no Peru
Essa mulher é f...go, é do peru,
É do ca...scalho, que loucura
Ela é punk, ela é dura, ela é pura
Combate a pirataria de peito aberto
Não tem medo de nerd, por certo
Nem de qualquer marxista virtual
Escritora assim não tem igual.
Mostra tudo, mostra a cara,
Mostra as pernas, mostra a bunda,
Mostra que a internet é uma barafunda...
Eu também quero me pelar.
No Peru.
Mas estou indeciso.
Não sei se me pelo contra a pirataria dos livros na internet.
Ou contra a falta de pirataria dos meus livros na internet.
É que eu sou um escritor maldito, fracassado, estressado.
Acredito que escritor tem de chutar traseiro de distribuidora, de editora, de livraria, de atravessador.
Salvo se fizer contrato por comodidade ou necessidade e quiser cumprir.
Acho também que trabalho de escritor tem de ser pago.
O pessoal anda confundindo ralar a indústria cultural com não pagar o trabalho de autor.
Estão tão acostumados a receber migalhas ou a ser enganados que sonham em universalizar o sistema.
Inventaram a conversa do "conhecimento livre".
Mas pagam para entrar no cinema e exigem receber para lecionar.
Ficarei pelado se precisar.
No passado, já dei palestra nu.
Eu era mais novinho.
O tempo passa.
A pirataria na internet tem três justificativas: lei de Gérson (o cara que não quer pagar), revolta marxista contra a propriedade privada e os preços exorbitantes cobrados pelos livros (não quero entrar hoje em outras searas).
A terceira situação vai ser mudada com novas modalidades de negócio.
Ninguém mais precisa publicar seus livros por editoras (mas se quer consumir os livros das editoras sem pagar).
As duas primeiras são eternas.
O pirata da internet é um mentiroso.
Mente para si em primeiro lugar.
É o papo dos sites de pirataria: só tinha livro esgotado, etc.
É a conversa da neutralidade na internet.
A internet é do mundo: o que vale fora dela, vale dentro dela.
Hoje estou pelado: todo defensor da pirataria na internet é um marxista escrachado ou enrustido.
Ser marxista é um orgulho.
Chamar alguém de marxista é visto pelos marxistas como uma ofensa.
Os mais sinceros são os Gérson.
Felizmente tudo isso vai acabar com o fim do livro, da escrita e do direito autoral.
Então não precisarei mais sair nu.
O dia do escritor como trabalho está com os dias contados.
Doravante será só por idealismo e reconhecimento.
Ou por amor à expressão.
Na melhor das hipóteses como funcionário intelectual do Estado provedor total.
Tirei a roupa.
Que frio!