A vida é bela. Bom começo de crônica. Não acham? Original, não? Se tem uma coisa que eu não entendo é propaganda de funerária. Todo e qualquer anúncio fúnebre é brega e macabro. Um agente funerário me ligou e falou assim: “É quando se está bem na vida que é preciso pensar na morte”. Ah, bom? Bati o telefone. Ele ligou de novo: “Não adianta fugir”, disse, “é uma questão de tempo”. Lucas, meu personagem no romance “Solo”, que não recomendo a ninguém por ser um dos piores livros publicados no Brasil neste morno século XXI, era publicitário e fazia anúncios para uma funerária. Num dos seus mais criativos lances, bolou um comercial que terminava com “Eternamente”. Tinha uma carta na manga para clientes mais metafísicos: “Seja o que Deus quiser”. E Deus, claro, sempre queria.
Lembro-me do tempo em que no Bom Fim havia caixões expostos nas vitrines. Era um espetáculo. Na saída dos bares, naquelas madrugadas trepidantes, escolhíamos os nossos. Eu me perguntava para que serviam mesmo aqueles caixões exibidos com pompa (é o caso). Será que alguém de passagem aproveitava para dar uma olhada num modelo? Será que pegava um cartão baseado naquela ideia sensata de que um indivíduo vivo é um cara prevenido até a morte? Felizmente nossos edis tiveram uma boa ideia (não é todo dia) e acabaram com a festa. Maneira de dizer, óbvio. Há quem diga que foi um erro. Não se deveria esconder a morte. No Brasil, vemos a morte todo dia na televisão ou mesmo nas calçadas. Para que caixão quando há cadáveres nas ruas? Sem dúvida, hoje eu estou muito sombrio.
Umberto Eco saiu-se com esta numa entrevista: “Nós temos um limite, um limite muito desencorajador e humilhante: a morte. É por isso que gostamos de todas as coisas que acreditamos não ter limites, e que, portanto, não têm fim. É uma forma de fugir dos pensamentos sobre a morte”. Original, não? Penso o contrário. Só para contrariar. A morte é o ilimitado, o começo do sem fim, o infinito por definição. Quando eu morrer, quero que todos os meus órgãos sejam doados, especialmente para os meus inimigos. Brincadeirinha! Quer dizer, quero realmente que meus órgãos sejam aproveitados por gente viva. Depois, desejo ser cremado. Não tolero a ideia de ficar alimentando vermes. Queimem tudo, por favor. Instruções para uso das cinzas: uma parte em Palomas, outra em Paris (alguém se habilita a fazer a viagem com tudo pago?) e outra perto do Beira-Rio se o Inter estiver liderando o campeonato brasileiro ou a Libertadores. Pronto. Feito. Em contrário, guardem tudo para a minha próxima encarnação ou semeadura.
Já pensei na morte. Voltemos à vida. Segundo a ONU, um bilhão de pessoas passam fome no mundo. Não se deve confiar em dados da ONU. Nem do IBGE. É tudo ideologia. Só para enxovalhar o capitalismo triunfante. A ONU é comunista de carteirinha. Vai melhorar. É que o sistema ainda não teve tempo de equacionar melhor essas distorções conjunturais devidas a efeitos perversos. De qualquer maneira, as alternativas se mostraram piores. Umberto Eco garante que fazer listas ajuda a viver. Façamos juntos as listas de fracassos e triunfos da humanidade. Temos tempo. A morte é uma grande ilusão. Aproveitem que o Gilmar Mendes está distraído. Ou ele manda vocês para a Itália. Cuidado!