Sou do tempo da utilidade. Só tenho um par de sapatos, pois não uso dois ao mesmo tempo. Custei a ter celular por não achar utilidade para o aparelho. Só cedi quando celular virou computador de bolso. Nunca tive um tablete. Não vejo utilidade. Faço tudo que o tablete faz no celular ou no computador, que tem praticamente o mesmo peso e a mesma portabilidade. Sempre quis ter um drone. Só não achava uso para o lindo aparelho. Espionar os treinos do adversário? Não acontece nada de importante em treino. As jogadas ensaiadas nunca funcionam.
Ia comprar um drone. Serviria para espionar o cachorro do vizinho. Ele latia de tarde. Nem sempre. Mas quando começava não queria parar. Sou um cientista. Social também é cientista. Adoro correlações. Presto atenção em constantes. Busco semelhanças e diferenças. Construo hipóteses. Tento confirmá-las ou refutá-las. Notei que o cachorro latia sempre que eu li Machado de Assis depois do almoço. Eu sempre leio Machado de Assis depois do almoço. Logo, os latidos não têm a ver com Machado de Assis. O latido não me permite identificar a raça do cão. Nem a cor. Nem o tamanho. Há cães pequenos que latem forte e grosso. Há cães enormes que não latem. Nada tenho contra os cachorros. Se tivesse pátio, teria um, como quando era menino e não me desgrudava do Lobo. Nome criativo. Sou antigo. Cachorro para mim precisa de pátio. Eu mesmo precisaria de pátio.
Tenho pesquisado sobre drones. A internet já sabe disso. Preciso de um drone para espionar cachorro sem entrar na intimidade dos vizinhos. Um drone programado para ver cães e ignorar o restante. Outro dia, eu lia “Anarquia, Estado e utopia”, de Robert Nozik, quando o cachorro começou a latir incansavelmente. Nozik é um teórico do Estado mínimo. Estaria o cão aplaudindo ou contestando as ideias do filósofo? Cães são inteligentes. Lobo ficava louco quando eu fingia sofrimento. Dava pulos de alegria quando em parava de mentir e ria. Latia feliz quando via a Lídia Brondi na televisão. Farei experiências: lerei Slavoj Zizek depois do almoço. Zizek é pop. Comunista. Mistura psicanálise com filosofia e degustação de vinhos.
Levarei meu drone para passear na Redenção. Quero espionar os ninhos dos pássaros e filmar o exato momento em que as flores amarelas dos guapuruvus tombam. Planarei com elas até beijar suavemente a terra. Eu não ficava em casa. Não ouvia o cão latir. Não lia Machado de Assis nem Robert Nozick depois do almoço. Não caminhava na Redenção. Não via as flores dos guapuruvus tombarem. A pandemia me trouxe essas descobertas. Devo agradecer? Não. Devo me criticar. Eu estava perdendo coisas boas. Que botão acionava o cachorro depois do almoço? Quando alguém reclamava, o bicho parava imediatamente. Quem o desligava? Como fazia isso? Acho que esse cão é amarelo. Por quê? Para combinar com meu drone e com as flores tombadas dos guapuruvus. Não tem drone amarelo? Não pode ser. A indústria sabe a utilidade da cor, especialmente do amarelo que ensolara o chão. O cachorro não late mais. Estou sem utilidade para o drone que estava quase comprado.
*
Hoje, 18h, participo de live (link no site do Correio do Povo) com meu amigo parceiro Luiz Gonzaga Lopes sobre A memória e o guardião.