Como diz Umberto Eco, há um limite para a interpretação.
Não sugiro, não insinuo e nem afirmo em qualquer passagem do meu livro, “Jango, a vida e a morte no exílio”, que Percy Penalvo foi o delator denominado “agente B” ou qualquer coisa do gênero. Também não endosso comentário nesse sentido. Apenas cito declaração de pessoa que fez tal afirmação. Por que a cito? Porque meu livro examina a veracidade e a verossimilhança dos indícios e das fontes sobre a possibilidade de assassinato de João Goulart. E a pessoa que me fez tal declaração é referida como elemento capaz de dar veracidade ao relato da principal fonte atual de suspeita sobre as condições da morte de Jango. Nesse quebra-cabeça, há dois passos: construção e desconstrução.
A questão é: pode-se dar crédito a esses relatos?
As suspeitas de maior repercussão sobre o possível assassinato de Jango se baseiam em duas fontes, os uruguaios Foch Diaz e Mario Neira Barreiro. Foch já morreu. Em vida, foi condenado por calúnia e difamação por suas denúncias contra próximos de João Goulart. Teve seu livro,“El crímen perfecto”, tirado de circulação pelos mesmos motivos. Neira Barreiro deu continuidade à narrativa de Foch inclusive no que se refere a uma possível morte por troca de medicamentos.
Neira também nunca apresentou qualquer prova.
Diz ter fitas gravadas do tempo em que espionava Jango, mas nunca as mostrou.
Para tentar dar veracidade às suas histórias, Neira Barreiro cita, em certo momento, um personagem que seria informante do SNI. Neira teria sido encarregado de matá-lo. Por quê? Porque a pessoa estaria avisando Jango de que havia um plano para eliminá-lo. Como saberia disso? Eis a questão. O homem aparece em documentários sobre Jango contando uma história incrível. Interceptaria mensagens de Ernesto Geisel na Voz do Brasil pedindo-lhe para avisar Jango do perigo que corria. Entrevistei esse senhor. Ele me confirmou a fantástica história sobre as mensagens codificadas de Geisel pela Voz do Brasil. E contou outra coisa impressionante: Percy Penalvo seria o “agente B”, o espião que,infiltrado no cotidiano de Jango, passaria informações aos serviços secretos uruguaio e brasileiro. Cito isso no meu livro para que se possa ter ideia da dimensão das afirmativas dessa fonte. Trata-se de colocar cada peça no seu lugar com suas afirmações e gestos.
O leitor é convidado automaticamente a refletir: pode-se levar a sério o relato de alguém que diz ter interceptado mensagens de Ernesto Geisel na Voz do Brasil pedindo-lhe para avisar Jango de um plano para matá-lo? Pode-se levar a sério o relato de alguém que, depois de dizer isso, afirma que o considerado fidelíssimo Percy Penalvo era o tal “agente B”? Pode-se levar a sério outro homem (Neira) que só tem para dar veracidade à sua narrativa sobre a morte de Jango os relatos dessa fonte que diz interceptar mensagens de Geisel na Voz do Brasil e acusa o fiel Percy Penalvo de delator? A declaração sobre Percy é usada por mim para questionar a veracidade desse relato, não a lealdade de Penalvo. Essa acusação não é passível de verificação depois de ter sido feita. Salvo por quem a considerar verossímil. Não é o meu caso. A honra de Percy Penalvo é pressuposto. Nunca tive dúvida sobre isso. Pode alguém se retratar por acreditar na honra de um homem? Fiz um elogio a Percy Penalvo. Usei a sua honorabilidade acima de qualquer suspeita para questionar a credibilidade da acusação. Qualquer outra negação formal relativa a essa acusação, cuja veracidade se autoanula na frágil credibilidade da emissão e na sua evidente falta de veracidade, torna-se redundante. Questão de lógica.
No seu livro, nunca publicado, “Entrevista com um réu confesso”, Neira faz um carnaval sobre o decifrador das mensagens de Geisel. Numa passagem, diz: “optei por redigir um informe inocentando-o para que não fosse morto”. Em suposta carta que teria enviado ao dito cujo,afirma: “Quando ler o livro, ficará atônito ao saber que não eram pedras projetadas pelos pneus do carro que passou ao seu lado, as que ricochetearam na parede, senão projéteis calibre 22, de baixa velocidade saídos de uma pistola marca Hi-Standard com silenciador”. Noutro momento, escreve: “não foi assassinado só porque era tido por fantasioso e não foi levado a sério”.
Pode-se acreditar num relato como este da fonte que interceptava mensagens de Geisel:
“– Só tenho a dizer o seguinte: Getúlio, Jango e Brizola foram assassinados. Passar bem. Não ligue mais para mim.
– Brizola também?
– Pela sua secretária particular.”
Lendo-se tudo no contexto e no conjunto a consequência é ter de perguntar: dá para se acreditar na hipótese do assassinato de Jango a partir desse tipo de relato e desses elementos de legitimação?
Sugiro a leitura do livro inteiro.
A honra de Percy e da secretária particular de Brizola nunca estiveram em dúvida no meu livro.
As minhas dúvidas são sempre as mesmas: como se constroem os imaginários? O que valem as narrativas? O que legitima um relato? Como se estruturam os mitos? Quem diz o quê? Por quê?
O limite da interpretação começa na expressão do texto.