Pela janela do quarto via-se o mar do Caribe. Uma imagem azul-turquesa de constranger qualquer piscina. Não havia necessidade de ar condicionado. Pela fresta, entrava uma brisa confortável. A paisagem de coqueiros dava um tom surrealista ao quadro emoldurado pela natureza. Podia-se sentir de longe a maciez da areia fina e dourada da praia. Uma réplica de uma caravela coloria o horizonte. Mulheres e homens esculturais exibiam seus corpos saindo da água. Idosos espreguiçavam-se. Crianças corriam como se a qualquer momento fossem alçar voo.
Foi aí que ele tossiu. Em seguida, espirrou duas vezes. Começou a verter lágrimas que lhe inundavam o pescoço. Ficou aflito. Exclamou:
– Droga, se eu continuar assim vão me expulsar daqui.
– Vai passar – ela disse.
– E se não passar? Não vão me deixar embarcar de volta.
Ela viu que o pânico se acendia nos olhos dele. A noite caía suavemente. Ele espirrou de novo. Sentiu a garganta queimar. Na televisão, falavam sem parar do novo Coronavírus. O jeito era tomar providências possíveis: remédios, meias e desligar a televisão.
– Se eu amanhecer espirando assim, que faremos?
– Você fica no quarto.
– E na hora de limpar?
– Sai de máscara.
– Temos máscaras?
– Sim. Eu trouxe.
– Sai de máscara aí no meio desse povo pra ver o que acontece.
A noite foi longa. Custou a dormir. Via-se impedido de subir no avião. Amanheceu melhor. Não tinha febre. Mas a garganta continuava ardendo. Tirou as meias. Era esquisito dormir de meia no Caribe. Vestiu short vermelho. Foram ao café. Havia gente do mundo inteiro, inclusive chineses. Quando estava terminando um prato de frutas, sentiu um calafrio. O espirro chegou três segundos depois. Todos os olhares voltaram-se para ele. Encolheu-se. Tratou de conter um novo espirro. Começou a chorar. Pelos seus olhos escorriam duas cachoeiras. Uma comichão tomou conta da sua garganta. Correu para fora do restaurante. Tossiu. Uma senhora muito elegante de maiô preto fixou nele o olhar.
Retornou para o quarto. Recolocou as meias. Podia ser um simples resfriado. Era certamente culpa do ar no avião. Um gelo. Desembarcara transformado num pacote gelado. Adorava conhecer novos lugares. Detestava cada vez mais as viagens, especialmente os aviões. Ficou encolhido tentando ler. Ficaria assim até se sentir bem? Não seria melhor chamar um médico. No café, um homem havia comentado em espanhol que nem sempre aceitavam os seguros internacionais. Talvez fosse necessário pagar para ser atendido. O problema não era esse.
– E se o médico me põe de quarentena?
– Para de delirar. É só uma gripe comum.
– As pessoas aí fora vão acreditar nisso?
Via-se internado por longos 14 dias. Cogitava trocar a passagem e voltar imediatamente para casa. O que aconteceria, porém, se espirrasse na sala de embarque? Ou, caso conseguisse entrar no avião, como o tratariam se no meio da viagem começasse a tossir e a espirrar? Por que cargas d’água havia aceitado viajar numa época de alerta internacional? Por que não havia cancelado tudo? Só queria estar em casa, no seu canto, com liberdade para tossir, espirrar e até morrer em paz.
Quando se sentiu melhor, caminharam pela praia. A água era convidativa, mas temia provocar o resfriado. Melhor evitar. Queria pensar em outras coisas, não conseguia. A televisão era um campo minado. A cada meia hora divulgavam uma atualização das vítimas do coronavírus. Só a leitura aliviava a pressão. Cada dia seria uma tortura. E se o resfriado voltasse? E se uma gripe se confirmasse? E se tivesse febre? O Caribe não era área de risco. Mesmo assim, temia.
Num dia mais tranquilo, saíram a passear. Na beira da piscina, um homem idoso espirrou. Dezenas de pescoços espicharam-se num único movimento. Foram a um passeio. O motorista mostrou a farmácia 24 horas, o hospital conveniado com o hotel, garantiu que os turistas eram bem atendidos, estimulou a todos a não hesitarem em caso de necessidade.
– Não pretendemos adoecer – disse.
– Claro, claro, mas sempre alguém adoece – ponderou o homem.
Tomou aquilo como um mau sinal. E se fosse a vez dele? Nunca tinha adoecido em viagem. Estatisticamente falando, pensou, não poderia passar a vida ileso. Lembrou-se de ter lido as memórias de um conhecido que havia adoecido no Caribe e que passara semanas vendo a areia, o mar e os coqueiros da janela de uma clínica. Teria sido um aviso para não viajar? Por que não tivera coragem de ter medo antecipado? Pelos gastos feitos? Para não ser estraga-prazer? Refletiu sobre suas metamorfoses. Quando havia começado a ter medo de adoecer em viagens? Os dias passaram sem que se esquecesse do medo inicial. A beleza do Caribe, porém, venceu. Descansou. Certo dia, abriu os olhos. Estava no avião. Não tossiu, não espirrou. Mas teve vontade de beijar o solo pátrio.
– Você quase morreu de coronavírus imaginário – ela disse.
– Não se brinca com algo tão sério – encerrou o assunto.