A vida é dura.
Ainda mais para quem precisa captar recursos para partidos políticos.
Estou com muita pena do ex-tesoureiro do PT, o agora encarcerado João Vaccari Neto. Fez tudo o que o partido precisava e agora teve de assinar sua carta de demissão sem a ter escrito. A família não queria que ele aceitasse a ingrata função de responsável pelas finanças do Partido dos Trabalhadores. Tesoureiro de partido, especialmente do PT, é coisa para mártires. O sujeito faz o trabalho sujo, beneficia os grandes das suas hostes e, quando tudo é descoberto, pelo bem da causa, deve cair sozinho. A regra do jogo manda que seja abandonado e fique de bico calado.
Delúbio Soares “morreu” assim. Será que Vaccari tem vocação para herói?
Suportará as longas horas amargas sem cair na tentação de uma delação premiada?
Vaccari conseguiu milhões para os cofres petistas. Era um mágico. Fazia jorrar dinheiro nas campanhas. Ninguém, obviamente, sabia como ele operava os seus milagres. Devia estar no contrato que nem cabia contar como agia para evitar o comprometimento dos chefes. Parte do PT queria mantê-lo na função, mesmo atrás das grades, para não passar recibo de culpa no cartório ou por gratidão. Não há espaço para isso. Um herói deve explodir-se pela causa do partido tendo como única recompensa as virgens do paraíso. Candidamente os seus superiores desligam os celulares. A hora é de distanciamento. Foram só milhões, ou bilhões, obtidos como “doações legais”. Quem poderia imaginar algum ilícito por trás disso? Só o juiz Sérgio Moro. Partidos já ensaiaram o refrão: o sistema atual obriga a agir assim.
Vaccari receberá mensagens em código: “Aquenta firme, companheiro, estamos contigo”. Verá, na televisão da cela, personagens impolutos, como José Agripino Maia, investigado por recebimento de propina no seu Estado, articulando o impeachment da presidente Dilma. Tesoureiro do PT é função de alta periculosidade. Será que Vaccari recebia alguma gratificação por insalubridade? O ex-bancário, pelo que se sabe, é um alquimista. Fez da legislação de doações de campanha um meio de lavar propinas sujas de petróleo, legalizando o ilegal com a chancela involuntária do TSE.
Um gênio. Além de tudo, generoso. Compartilhou a metodologia com o PP e o PMDB.
Eu, no lugar do Vaccari, contaria tudo. Botaria fogo no circo. Vaccari dificilmente fará isso. Deve ser um militante disciplinado. Certamente leu textos edificantes sobre camaradas que se sacrificaram pelo proletariado em lutas do passado. Insistirá na tese de que há um complô do juiz Moro consistindo em tentar transformar doações legais em ilegais para criminalizar o PT. Se precisar, acusará a CIA. Sonhará a cada noite com Lula estendendo-lhe a mão na hora derradeira. A dificuldade será ver imagens de Marcos Valério apodrecendo na cadeia. Só lhe resta torcer que os telejornais não se lembrem de procurar o carequinha do mensalão nos seus arquivos.
Como estará se sentindo o desgraçado João Vaccari? Já como um mártir? Orgulhoso da sua firmeza? Prestes a explodir? O futuro do Brasil petista está nas suas mãos úmidas. Ficou importante, hein?
A política brasileira é a arte de transformar o ilegal em legal e de "sacrificar-se" pela causa que não existe mais.