Juremir Machado da Silva

Polêmica sobre a questão do aborto

Polêmica sobre a questão do aborto

Caro jornalista,

Sou médico, assinante do Correio do Povo e leitor eventual de sua coluna.

Resolvi escrever-lhe após ler sua coluna "A questão do aborto". Lamentável tratar deste assunto com tal cunho político. Explicitamente colocas tua posição política acima do tema. Não preciso citar passagens que comprovam toda a tua parcialidade em favor da candidata petista. E pior, discute o tema em si de forma tão superficial e com argumentos estúpidos.

Em primeiro lugar, é lamentável que alguém julgue avanço cultural e maturidade de uma sociedade levando em conta se ela é a favor ou contra o aborto. Há inúmeros argumentos "modernos" a favor de tal ato, mas outros tantos tão "modernos" contra. Não os discutirei neste momento, mas, se eventualmente quiseres, poderemos manter esta pauta.

Outro ponto ridículo é quando tentas igualar o aborto qualquer ao aborto secundário ao estupro. Só para lembrar, aborto após estupro acontece após um ato sexual não desejado, sendo o filho colocado na mãe (vítimia) mediante um crime terrível. No outro tipo, creio que ambas as partes envolvidas no sexo tem plena consciência do que estão fazendo (ou deveriam ter). No meu ponto de vista, maturidade cultural é quando todas as pessoas racionais sabem como prevenir gestação e sabem também quando devem fazer isso. E aborto nada mais é que tirar uma vida ou um potencial de vida, que para mim é a mesma coisa. Até hoje não conheci nenhum ser humano que existiu sem passar pela forma de zigoto, que é o que ocorre quando o espermatozóide penetra o óvulo, antes mesmo dos três meses de gestação.

Sugiro como tema para a tua próxima coluna todos os escândalos envolvendo a candidata. Bem como toda a "ficha limpa" das pessoas que a cercam. Ou os lapsos de memória do atual presidente, que não lembra e não sabe de nada ruim que o cerca. Mas campanha política mal feita, da forma como tu escreveste, fica feio.

Fernando Soliman


Minha resposta:

Caro Senhor: apesar dos seus termos grosseiros, penso que me cabe responder. A questão do aborto entrou nessa campanha por razões políticas. Parece evidente que o senhor apoia a candidatura Serra. O seu ponto de vista é, antes de tudo, político. É o seu direito, absolutamente legítimo. Outros médicos têm me enviado e-mails com pensamentos opostos ao seu. Certamente que há argumentos modernos a favor e contra o aborto. Essa é uma questão que vai muito além da medicina. É filosófica, social, antropológica. Resta responder: por que a Europa inteira legalizou o aborto? São estúpidos? Superficiais? Científica e eticamente mais atrasados do que nós?

Os argumentos usados por eles são, em regra, os que apresentei.

A sua argumentação é contraditória. O senhor afirma: "E aborto nada mais é que tirar uma vida ou um potencial de vida, que para mim é a mesma coisa".
É a sua premissa.
Mas o senhor diz também que: "Só para lembrar, aborto após estupro acontece após um ato sexual não desejado, sendo o filho colocado na mãe (vítimia) mediante um crime terrível".
Conclusão: para o senhor, em certas circunstâncias, é permitido eliminar uma vida.
O problema filosófico é bem mais complexo: pode o homem, exceto para salvar uma vida, por exemplo, de uma mãe, tirar uma vida por ela não ter sido desejada na sua concepção?
Eu, pessoalmente, entendo que sim, mas isso continua sendo, sob certo ângulo, tirar uma vida indefesa, o que contraria o princípio de que se deve defender a vida acima de tudo.
Esse aspecto abre a discussão filosófica mais importante: qual é o limite para a aceitação do aborto e qual é o argumento. Se for a defesa da vida acima de tudo, filosoficamente falando, não deveria poder no acaso do estupro.
Isso não tem a ver com medicina, mas com princípios filosóficos e lógicos.
Última parte do seu e-mail: "Sugiro como tema para a tua próxima coluna todos os escândalos envolvendo a candidata. Bem como toda a "ficha limpa" das pessoas que a cercam. Ou os lapsos de memória do atual presidente, que não lembra e não sabe de nada ruim que o cerca".
Essa parte mostra que o seu interesse na questão é simplesmente político. Repito: é seu direito.
De nossa parte, temos denunciado, analisado e criticado incansavelmente erros de todas as partes e candidatos. De resto, não há partido no Brasil, salvo, talvez, algum nanico, que não esteja cercado por todos os lados de pessoas com ficha suja. Eu critiquei duramente o mensalão do PT. Cabe lembrar que os mensalões surgiram com o PSDB de Minas e que o mais escandaloso de todos foi o mensalão de Brasília, do Dem, aliado do PSDB nesta eleição presidencial.
Penso ter sido respeitoso na minha resposta. Não tenho partido. Nem candidato. Atenciosamente, Juremir