Como se sabe, os norte-americanos transformam tudo em espetáculo e têm dificuldades com jogos de escore baixo como futebol. Eles gostam é de 93 a 91, 101 a 99, resultados assim. Em política, as primárias às eleições presidenciais são um show com muitos capítulos, personagens, vilões, heróis, azarões, franco-atiradores, bilionários “idealistas” e ideologias. Americanos não vivem sem doses cavalares de ideologia. Se tem um lugar onde esquerda e direita nunca saem de moda é nos Estados Unidos. Ontem, aconteceu a Superterça das primárias democratas. Os candidatos buscaram votos em 14 Estados, com um terço dos delegados em disputa. Para virar candidato precisa colecionar delegados a favor.
Um nome está enlouquecendo a mídia. Que mídia? A brasileira. É Bernie Sanders. Os reacionários jornalões de Rio de Janeiro e São Paulo declararam guerra a ele como se fossem lidos pelos eleitores dos Estados Unidos. Qual é o problema de Sanders? Progressista demais. Socialista. Pipocam os artigos na mídia brasileira sustentando que ele é um perigo para a economia americana. Pode quebrar o mundo. Diante de um perigo tão iminente, Donald Trump vai ficando menos indigesto. Vimos não faz muito tempo uma versão desse filme com outros personagens. Sabermos o que dá. Em casa, Sanders precisa convencer que é capaz de bater Trump. Os adversários tentam provar que ele é extremista demais.
Radical, o senador democrata, que na Europa seria um pálido socialdemocrata, defende propostas que horrorizam a “ponderada” mídia verde-amarela como um sistema universal público de saúde. Um SUS americano. Os “sensatos” analistas tropicais exclamam: “Imaginem o custo disso!” Sanders quer mais Estado e mais proteção aos vulneráveis. Sustenta que a riqueza deve estar a serviço do bem comum e que o Estado deve funcionar como um dispositivo de reequilíbrio e redistribuição. A mídia brasileira vocifera: “Que atraso!” Bernie Sanders quer solapar o poder dos grandes bancos, diminuir juros de cartões de crédito e taxas de administração, controlar os apetites de Wall Street, taxar a especulação financeira, reformar as agências de classificação de risco, que mentem à vontade em nome de interesses nada secretos, acabar com o uso de combustíveis fósseis, combater o aquecimento global, ampliar as vagas em creches públicas, tornar gratuita a educação superior.
Eis o homem a ser abatido. As bravatas de Trump vão ficando insignificantes aos olhos dos que denunciam os horrores econômicos anunciados por Sanders. Um analista brasileiro escreveu: “Um governo de Bernie Sanders, em resumo, seria potencialmente o mais intervencionista e gastador da história recente americana. Trump vai explorar isso sem dó em uma eventual disputa entre os dois”. A ideia é assustar os democratas para que enterrem Sanders e escolham um candidato mais respeitador do sistema, alguém como o bilionário Michael Bloomberg ou Joe Biden. Se isso não acontecer, a mídia brasileira marchará com Trump. A extrema direita parece-lhe melhor que a socialdemocracia.
Bloomberg não decolou. A briga será entre Bernie Sanders e Joe Biden.
A mídia brasileira terá de ficar com Trump mesmo.