Juremir Machado da Silva

Por que eu adoro Baudelaire?

 O poeta, talvez o maior de todos, Charles Baudelaire morreu em 31 de agosto de 1867, aos 46 anos de idade. Na sua curta vida, foi longo em sensibilidade e intenso em entregas ao ópio e ao absinto. É assim que eu o sinto, um hino à beleza, um navio abandonado, um espírito atormentado, uma atmosfera nublada, um ideal inalcançável, uma certeza: a existência é uma passante em torno da qual rugem os homens em busca de um amanhecer espiritual. Por que falar de um poeta morto há 150 anos? Por que louvar um esteta que deu os seus canos? Por que revisitar os seus versos tão lindos quanto desertos? Porque sim.

Deveria bastar essa resposta aos néscios (encontrei, enfim, uso para essa palavra) destes tempos prosaicos em que o amor à poesia exige explicação e as contas no supermercado sempre superam a inflação. Mas é só pensar na serpente que dança em torno de um bastão para que sentimentos despertem e se convertam em litanias aos príncipes exilados ou em mensagens aos poetas das cidades. Quem não se vê certos dias, sob um céu chapado, lembrando do tempo em que as estrelas coalhavam o azul? Eu já tentei reescandalizar Baudelaire, que foi processado por versos imorais, já retraduzi suas flores do mal para lhes dar um novo perfume carnal. Já lhe forneci uma nova moral.

Baudelaire não pisava no chão, mesmo sendo o solo de Paris, salvo para ir aos bordéis ou riscar calçadas com giz, não pensava racionalmente, exceto para reclamar sua pensão, não aterrissava no mundo por falta de firmamento. Vivia na imensidão do etéreo curando ressacas homéricas com maresias dantescas longe do mar, mas perto do sol ou da solidão. Quando, enfim, expressava o que sentia era para falar de olhos errantes que imitavam joias raras e belas feitas de ouro e de ferro onde nada se revelava nem de doce nem de amargo. Olhos de perdição. O que cantava esse homem para interessar à justiça?

Falava de vampiros, de prostitutas, de viagens ao inferno, de luas ofendidas, frequentemente de olhos de mulheres, de sexo, muito sexo, de alucinações, de vertigens, de corpos encalhados como navios ou de barcos como corpos à espera de um navegador destemido. Começava poemas numa sociedade pretensamente casta com provocações baratas sobre mulheres caras, tratadas de queridas, que esperavam nuas, vestidas apenas com suas bijuterias, seus enfeites, suas joias. Ai! Falava disso e daquilo sempre numa atmosfera brumosa com uma linguagem ardilosa capaz de fazer estremecer sob a toga um juiz na sua soga. Ui!

Ele cantava as lembranças de épocas nuas e irremediáveis. Convidava para viagens sem volta, imprevistas, irreparáveis, descobria harmonias da noite que só ele via, falava de fontes de sangue, de jatos de água, de anáguas, de horror simpático, do gosto pelo nada, da morte de pobres, de artistas, de amantes, de musas venais, de prazeres banais, de Lola de Valência, de Lesbos, de paisagens, faróis, músicas, peixes, perfumes exóticos, amores tóxicos, cachimbos, obsessões e bacanais. Não se sabe se ele sabia demais ou apenas imaginava o que dizia para enganar a passagem do tempo com uma narrativa menos lenta.

Fazia epígrafes para livros condenados, amava os gatos, esses orgulhosos solitários como ele, os boêmios, os amantes do vinho, as brumas, escumas, chuvas e fustigava os abstêmios. Via Dom Juan nos infernos, abordava crepúsculos da manhã e descrevia fantasmas, mulheres danadas, condenadas, perdidas, esquecidas, mas sempre lembradas, bastas cabeleiras, tardes em esteiras, pedintes ruivas, castigos, inimigos, cisnes, corpos femininos sob luzes lânguidas, alquimias de dores, amores, odores, destinos, sinas e certas esquinas.

Possivelmente o que mais o fascinava na arena terrena era o abismo que descrevia como um espaço silencioso, assustador e cativante. Ele tinha medo do dormir por sentir o sono como um grande buraco onde se podia morrer sem cair. Colocava no mesmo saco a rotina, a ordem e a mediocridade. Falava das poltronas esmaecidas de velhas cortesãs e de um morto alegre numa “terra farta e cheia de escargots”. Baudelaire foi cometa e cometeu todos os crimes possíveis contra os costumes da sua época. Não cabia no costume que lhe haviam destinado. Parecia-lhe que seu sangue fluía feito ondas ritmadas como soluços. Retomo o que ele disse, corto, acrescento, recorto, concluo, intuo.

Certas manhãs, quando atravesso a rua, com um céu de chumbo adornando a imagem do Bom Fim, eu penso em Baudelaire e apresso o passo para segurar a vertigem e não perder o São Caetano. Se o vento sopra mais forte, abraço um braço com o outro e recito algum resto de verso no reverso do fluxo que se contorce languidamente enquanto os motoristas bocejam ou recolhem jornais. Um homem de cabelos grisalhos, entrado nos anos, que espera a sinaleira abrir para tomar modestos atalhos urbanos, pensando no lendário e mitológico Charles Baudelaire significa alguma coisa. Mas o quê? Ainda não sei.

Será que saberei?

*

Reescandalizar Baudelaire,

ou como ser fielmente infiel

Este prefácio, escrito inicialmente em 2003, continua válido. Continuo a trabalhar nos poemas e introduzi algumas modificações. O essencial é apenas isto: só adora realmente Baudelaire quem sabe a dor e a delícia de ser maldito e mal dito. O resto continua igual, a mesma pretensão e a mesma aposta na liberdade.

 

Esta tradução é uma homenagem e um diálogo com três
dos maiores e mais consagrados tradutores brasileiros de Charles Baudelaire: Jamil Almansur Haddad, Ivan Junqueira e Guilherme de Almeida. Os dois primeiros traduziram a totalidade de As Flores do Mal. O poeta Guilherme de Almeida escolheu as suas flores entre as Flores. Por que recomeçar o que outros já fizeram com talento e rigor? Antes de tudo, por paixão. O Baudelaire de Haddad aparece vertido na precisão da métrica e do ritmo, mas o tempo o “academicizou”. O poeta que escandalizou seu tempo, cuja obra, do ponto de vista vocabular, na língua de origem, mantém-se praticamente intemporal, o que lhe dá uma extraordinária sensação de atualidade, no português de Haddad tem a marca, possivelmente, dos anos 1950.

Além do mais, Haddad, em situações de ambigüidade erótica, tende a fazer escolhas mais “pudicas”. A tradução de Ivan Junqueira mostra-se, quem sabe, mais acabada, sendo quase sempre fiel à métrica e ritmo e com menos datação vocabular, ou, caso se queira, com uma datação vocabular mais próxima de nossa época. As traduções, parafraseando outro poeta, são eternas enquanto duram. Junqueira, entretanto, parece, às vezes, mais frio, menos intenso, mais técnico, o que pode ser positivo e negativo. Questão de ângulo.

As flores de Guilherme de Almeida são mais pessoais, mais autoralmente poéticas, igualmente apaixonantes. São poucas e suas, deixando margem para outras e para soluções diferentes das que adotou no seu exercício de paixão por Baudelaire. Muitos outros traduziram, esparsamente, essas floras que não param de encantar, de seduzir e de provocar o desejo de encontrar novas fórmulas e versões. Eu quis, num gesto de heresia total, dar-lhe um pouco do ar do nosso tempo, frívolo, pós-moderno, efêmero, obsceno, apesar da quebra de qualquer referência capaz de estabelecer um valor moral seguro, “em que tudo o que é sólido desmancha no ar” e, contudo, permanece cristalizado no imaginário social.

Não se trata de “popularizar Baudelaire” nem de desvalorizar o grande trabalho de Haddad ou dos outros. Mas, talvez, de seguir o que o próprio Haddad semeia, citando Theodore Savory, ao sintetizar seis alternativas para traduzir: dar as palavras do original/dar as idéias do original; criar um trabalho original/ser apenas uma tradução; refletir o estilo do original/refletir o estilo do tradutor; fazer uma tradução contemporânea do autor/contemporânea do tradutor; acrescentar ou tirar do original/conservar o original; traduzir verso em prosa/traduzir verso em verso. Haveria muito mais a discutir em termos de teoria da tradução. Não é o caso aqui. Basta dizer que segui a idéia da síntese, indicada até mesmo por Haddad, e pratiquei tudo e o seu contrário, conforme as necessidades.

Selecionei, traduzi literalmente, “transcriei”, aliterei, “desaliterei”, inventei palavras, cometi galicismos, mantive, ao máximo, o original, cortei, aqui ou ali, acrescentei, na estrita linha do sugerido pelo poeta, isto ou aquilo, interpretei, adulterei, “atualizei”, tornei vulgar, cometi anacronismos, desobedeci a tudo, principalmente à métrica, saí, algumas vezes, das palavras do original para tentar chegar mais ainda até elas e sempre me ative as idéias do original, mesmo quando me desviei ligeiramente delas, em termos de vocabulário, para entrar, novamente, de cabeça nelas. Fui terrivelmente infiel em nome da mais absoluta fidelidade.

Devo tudo a Haddad, Junqueira e Almeida. Em alguns momentos, adotei literalmente a solução encontrada por um deles. Em outros, cruzei-os num mesmo poema, ficando ora com escolha de um, ora com a escolha de outro. Os leitores não terão dificulade em encontrar os ecos, as citações e as marcas literais desses três tradutores nesta seleção sem notas, mas com atestado de dívida, como um filme que cita outros sem apresentar notas de rodapé. Nesse sentido, há colagem, mescla, “sampleamento”. Alguns dirão, possivelmente, pilhagem, maquiagem, deturpação. Eu direi, simplesmente, tradução “conectiva” e “coletiva”, embora completamente individual e autoral, no bom ou no mau sentido, sendo que um mau resultado tem exclusivamente a minha assinatura.

O grande tradutor Ivo Barroso denunciou, recentemente, o saque a traduções consagradas, inclusive de As Flores do Mal. Com razão. Neste caso, estou seguro, há nova tradução, talvez pior, certamente com absurdos, alexandrinos expandidos e outros barbarismos. Não seria totalmente uma surpresa se um crítico escrevesse: se era para piorar as traduções de Baudelaire, o resultado foi perfeitamente alcançado. Acontece-me de imaginar que para voltar à origem a alcançar sensações profundas, em arte, é preciso, às vezes, piorar as coisas. Até mesmo as apresentações de um livro. Esta, “interessantíssima”, em se tratando de marketing, não deve ser das mais canônicas. Eu só queria voltar a sentir o cheiro de sangue, de sêmen, de morte e de flores, que sempre encontro em Les Fleurs du Mal.

Mesmo o título “Flores do mal, o amor segundo Charles Baudelaire”, que garimpei, é impreciso, na medida em que incluí poemas de outros temas, principalmente sobre a morte. Tudo em Baudelaire, imagino, é perpassado pela noção de amor, um amor estranho, ora romântico, ora gótico, ora singelo, realista, ora abstrato, ora concreto como a carne das prostitutas, mas sempre, em tudo, figurando com uma linha de obsessão e de estímulo, no vinho, nos astros, na revolta, na própria poesia, nas mulheres e na fêmea fatal, a morte.

Parti do volume de As Flores do Mal, obra completa, da Plêiade. Porém, tirei tudo da ordem. Misturei os poemas seguindo o critério dos meus instintos, mesclando o que estava na primeira edição com o que foi acrescentado depois, inclusive algumas das peças condenadas, e até o que Baudelaire não queria ver numa edição definitiva de As Flores do Mal, como “Lola de Valência”, que os tradutores insistem em desconsiderar, inclusive eu. Até mesmo “epígrafre para um livro condenado”, de “As Novas Flores do Mal”, aparece aqui, o que é cúmulo da desordem, como último poema escolhido, numa pós-epígrafe. Recortar Baudelaire pelas tramas do amor (e da morte) não significa “romantizar” o poeta da modernidade. Ao contrário, implica “cotidianizar” o amor e a morte, aquilo que Charles Baudelaire fez melhor do que ninguém.

Os critérios aqui são, exclusivamente, a paixão e o caos. Desta tradução, o mínimo que se pode dizer é que já nasce datada, com gírias e clichês da minha época. Pós-moderna, quer encontrar qualidades em seus defeitos, totalidade na sua absoluta parcialidade e permanência na sua efemeridade. Tradução “indefinitiva”, mais fascinada pelo vulgar do que pelo rebuscado, mais interessada nos bordéis do que nas academias, mas, ainda assim, elitista, pois voltada aos que seriam capazes de cometer atentados-suicida pela poesia. Anacrônico, Baudelaire era um homem-bomba poético. Eu continuo fazendo retoques e cometendo novas heresias, fiel à infidelidade de Baudelaire.

Juremir Machado da Silva,

Porto Alegre, março de 2008.

 1

A Serpente que dança

 

Babo de ver, gata indolente,
No teu corpo de modelo,

Como uma lingerie insolente,

Tremeluzir o pêlo.
No teu cabelo profundo,

Acres perfumes,

Mar odorante e vagabundo,
Ondas azuis e negrumes,
Como um navio de esguelha

Ao vento da manhã,

Minha alma sonhadora aparelha
Para uma terra pagã.

 

Teus olhos que nada revelam

De doce nem de fatal,

São jóias frias que modelam

O ouro com o vil metal.
Quem te vê nesse andar que balança,

Linda e morta de tesão,

Imaginaria uma serpente que dança

Na ponta de um bastão.
Tonta de tanta beleza

Tua cabeça de infante

Ondeia com a moleza
De um jovem elefante.
E teu corpo se dobra e estira,
Como um suave barquinho

Que costeia a margem e atira

As suas vergas ao ninho.
Como vagas alimentadas pelas fontes

Dessas geleiras mordentes,

Se as águas da tua boca viram pontes

rente ao fio de teus dentes,
Creio beber da Boêmia um vinho,

Amargo e campeão,

Céu líquido que faz um caminho

De estrelas no meu coração!