Juremir Machado da Silva

Por uma teoria das bifurcações

Num voo de volta de Paris, há alguns anos, um colega passou horas me aborrecendo com a tese de que nada escolhemos. Tudo seria determinado por uma espécie de necessidade material. Não havendo separação entre corpo e espírito, tudo seria consequência de reações encadeadas da matéria. Na falta de melhor, chamei isso de determinismo. Meu colega citou Spinoza (não o técnico campeão mundial com o Grêmio, o outro, o filósofo) e classificou de simplista a minha posição. O livre-arbítrio seria uma ilusão. Quando segui o seminário do poderoso e famoso sociólogo Pierre Bourdieu, no Collège de France, ficava perplexo quando ele humilhava algum aluno dizendo que a autonomia individual não passava de uma bobagem pequeno-burguesa.

Ao colega, já de madrugada, eu dissera que se experimentamos uma escolha como um dilema, como acontece, então escolhemos. Se sofremos para escolher, então vivemos como escolha aquilo que estaríamos obrigados a fazer. Tenho pé atrás com excesso de lógica. Nessas formulações pretensamente eruditas tem sempre um pouco de falcatrua: se escolhi A e não B é por que só poderia escolhido A. Feita a escolha, porém, dificilmente podemos escolher um retorno à posição inicial. O cronista Carlos Heitor Cony chama isso de “tomar a esquina errada”. Para mim, é a teoria da bifurcação. É a vida. Em que momento bifurcamos? Em que momento a minha vida bifurcou para sempre?

Quando vi pela primeira vez o trem se perder na curva em Palomas? Quando li o primeiro livro? Quando ouvi, entre chiados, a voz de um narrador da Rádio Guaíba falando do México, em 1970? Quando decidi botar o pé na estrada para estudar em Porto Alegre? Quando foi isso? Como foi isso? Como pude tomar essa decisão que contrariava todas as minhas possibilidades materiais? Não sei se tudo é uma coisa só. Não sou dualista nem materialista. Também não sou idealista. Sei apenas que digo “meu corpo”. E, quando digo “meu corpo”, sinto que digo isso como se falasse de outro corpo, como se falasse de fora.

Estou deprimido, abstrato, sem assunto? Nenhuma dessas hipóteses. Estou especulativo. Acho que o homem é o único ser que pode ver o seu corpo como algo fora de si, um objeto sobre o qual pode se manifestar. Como saber, porém, o que uma raposa sabe do seu corpo? Sei que, com o meu, tenho bifurcado pela vida. Muitas vezes, pensei avançar em linha reta. Seria a reta só uma ilusão pequeno-burguesa? Seria a bifurcação uma ilusão de ótica do subjetivismo?

Tenho certeza de que bifurquei sem retorno numa tarde de chuva quando li poemas de Pablo Neruda, Antônio Machado e César Vallejo. Até hoje eu me pergunto: como foi que a poesia saiu da vida das pessoas para tornar-se um discurso distante e hermético? Bifurquei ao ler: Caminante, no hay camino,/se hace camino al andar./Todo pasa y todo queda,/pero lo nuestro es pasar,/pasar haciendo caminos,/caminos sobre la mar”.

Quando terá o PT bifurcado da utopia para os negócios? Quando terá Lula bifurcado? Até quando tucanos voarão em linha reta? Quando terá o PSDB guinado à direita e virado UDN?