Porto Alegre, capital de faroeste
De repente, Porto Alegre descobre sua identidade.
É uma cidade de faroeste.
Cidade sem lei.
Cidade com leis que não cumpridas.
Cidade em que o xerife por mais zeloso que seja não consegue mais dar conta da violência desbragada.
Porto Alegre, cidade perdida.
A capital de um Estado de caubóis destemidos que cavalgam a esmo numa coluna interminável, mais de três mil cavaleiros, sob o sol escaldante, à beira do mar.
Cavalos morrem.
Os mais sensíveis se chocam.
Mas não é só isso.
É muito mais.
Um médico e político é abatido a tiros ao sair de um tempo religioso. Morre atirando. Desfecha nove tiros contra os seus agressores. Fere, pelo menos, um deles.
O chão fica coberto de sangue.
Os bandidos fogem a cavalo. Ou seja, de carro e de moto. Escapam antes de ser perseguidos. Estarão vivos?
Terão ido morrer na solidão de algum barranco?
Serão capturados algum dia?
A maior parte dos crimes fica sem solução.
A polícia está sobrecarrada.
Certos ônibus são assaltados todos os dias.
No mesmo horário.
As pessoas carregam o dinheiro do ladrão.
Os cidadãos voltam a defender-se de armas na mão.
É preciso ser o mais rápido no gatilho para sobreviver diante de tantos perigos e bandoleiros.
As autoridades pregam a não-reação.
Os mais afoitos já não aceitam morrer sem reagir.
Querem ter, ao menos, uma chance de escapar.
Colocam armas na mala dos carros para o caso de ser alojados ali por sequestradores ou ladrões de veículos.
Raramente se encontra alguém virgem de violência. Quase todo já sofreu, ou conhece alguém que sofreu, alguma agressão. Andar na rua é muito perigoso.
O mundo está perigoso demais.
Autoridades e famosos usam roupas blindadas.
Ricos se fecham em condomínios protegidos por cercas elétricas, cães, guardas armados até os dentes e câmeras.
Numa diligência, quer dizer, numa lotação, linha Chácara das Pedras, um bandido pós-moderno, de mochila de grife nas costas, aponta o revólver para uma moça e tira-lhe o celular, o laptop e o relógio. Depois, saqueia os outros passageiros. É discreto, eficiente, educado. O cocheiro, quer dizer, o motorista, nada percebe.
O homem salta num ponto qualquer e desaparece.
São sete horas da noite. A cidade fervilha.
Num morro, um garoto é executado por ter dito gracinhas à mulher de um poderoso chefe de bando.
Quem se interessará pelo seu caso?
No centro da cidade, um assaltante apressado joga uma senhora idosa ao chão, quebrando-lhe a bacia, para tirar-lhe R$ 200. Ninguém se atreve a intervir.
Há guardas de bancos que informam seus parceiros quando um cliente da terceira idade saca muito dinheiro.
Porto Alegre, capital do Velho Oeste.
No domingo à tarde, no grande Parque da Redenção, explode um tiroteio. Grupais rivais entram em choque enquanto famílias tentam aproveitar o final de semana?
Muitos tiros são disparados.
Quatro, ao menos, ficam feridos.
Pessoas jogam-se no chão. Crianças se apavoram. Mulheres gritam desesperadas. Sirenes soam ao longe.
Chegar em casa de carro à noite é uma aventura.
É o momento escolhido por assaltantes ligeiros para atacar motoristas lerdos. Todos sentem muito medo.
Porto Alegre é um cidade globalizada.
Uma capital de faroeste.