Porto Alegre sempre
Fim de ano me deixa nostálgico. Eu me reescrevo.
Vai fazer 30 anos que eu a conheço. Na primeira vez que a vi, senti um estremecimento. Pareceu-me misteriosa, profunda, impenetrável, linda. Pensei que mesmo numa vida inteira não a conheceria totalmente. Com ela, experimentei todas as etapas da relação amorosa: deslumbramento, paixão, rupturas e amor. Vivemos aos tapas e beijos. Vez ou outra, sinto-me traído e a esbofeteio. A bem da verdade, ela quase não reage. Mostra-se indiferente ou altiva. Dissimulada. Maravilhosamente desdenhosa e sutil. Nesses momentos, odeio-a de tanto amá-la.
Outro dia, na Osvaldo Aranha, contemplando as palmeiras, refletindo sobre a vida, compreendi que estou ligado a ela para sempre. Cheguei a passar longe dela mais de cinco anos. Mas não a esqueci. Já a chamei de tudo: esnobe, provinciana, metida, vadia. Confesso que já a chamei até de burra. Sou um homem do meu tempo. Não estou imune aos preconceitos da minha época. Que fazer? Mas também já me derreti diante dos seus olhos líquidos, da sua beleza esguia, da sua coragem indômita, da sua inteligência polivalente e contraditória.
Tenho a impressão de que nunca serei correspondido à altura dos meus sentimentos. Certas noites, ela me faz crer que sou o máximo, que sempre esperou por mim, que será minha para sempre. Depois, certas manhãs, nem se lembra de mim. Segue o seu rumo distraída e cruel. Gosto dela com suas qualidades e defeitos. Aceito as suas rugas, vazios e baixarias. Pois, não raras vezes, perde a cabeça, embriaga-se, torna-se violenta, vara as noites fazendo festa, de vermelho ou de azul, estranha ao bom senso e à tranqüilidade dos lares. Gosto dela mesmo assim. Mesmo quando acorda com mau-hálito, fedendo a cigarro ou numa ressaca brutal.
Mil vezes, jurei deixá-la. E o fiz. Sempre voltei. Adoro vê-la nas manhãs de primavera, quando sopra uma brisa que a deixa ainda mais sensual, ou nas noites de verão, quando se mostra despudorada e convidativa, quase vulgar. Admiro-a quando discute política, futebol e amor. Orgulho-me quando vai à Feira do Livro, mesmo que, irreverente e até fútil, compre de tudo um pouco e ceda facilmente à tentação do mais fácil. Brigo, insulto-a e depois, na calada da noite, peço-lhe perdão. Detesto quando a vejo bajular qualquer um ou refestelar-se para os forasteiros, açucarada, quase falsa, mas terrivelmente sedutora com seus olhos de viração.
Vou dizer tudo agora: já lhe bati na cara, já a soltei nua no corredor, já quis que saísse de mim como se fosse uma cadela. Ela me deu o troco na mesma moeda. Mas sem nem me olhar. Quando quer ser fatal, ela me prova em poucos segundos que não sou nada. Depois, esquecida ou dengosa, mente para mim, afaga a minha cabeça e jura que eu sou o melhor. Na Redenção, à beira do Guaíba, no Beira-Rio, nas quebradas do Bom Fim, em Ipanema, em ruas esquecidas do Sarandi, em becos de Navegantes, até na Padre Chagas eu já a amei. Sempre foi bom. Mesmo quando foi ruim. Gosto das suas curvas, da sua barriga de fora no centro, da sua pele dourada no início de março, das tardes de inverno açoitadas pela chuva, do seu ar de sonsa e da sua infinita capacidade de, apesar de todos os trejeitos, não se dobrar a ninguém.
Eu já a troquei por Berlim e Paris. Já a esqueci em Buenos Aires. Já falei mal dela em São Paulo. Já a chamei de bairrista e conservadora no Rio de Janeiro. Já a traí muitas vezes. Quando fico despeitado, lavo a roupa suja e conto para todo mundo o que ela é capaz de fazer. Depois, arrependido ou saudoso, compreendo as suas incoerências, justifico a sua inconstância, explico o seu complexo de inferioridade, descubro-lhe uma imensa superioridade, proclamo que é mal-compreendida, injustiçada e tudo mais. Acabo em plágio e peço, bom canastrão, de joelhos: “Perdoa-me por me traíres”.
O tempo, contrariando a si mesmo, não diminuiu o fervor nem liquidou a paixão. Ainda me pego furioso a maltratá-la como se a tivesse conhecido ontem. Descubro-me cheio de ciúmes e indignado quando ela se entrega aos recém-chegados com a desfaçatez de uma velha conhecida. Sofro ou vibro quando a sinto alagada ou em brasas. Admito pagar este mico e declarar, a ela que é de todos e de ninguém, a ela que não cansa de esparramar-se, o meu imenso amor. Eu te amo, Porto Alegre. Por toda a minha vidinha deste século.