Porto Alegre virou um lugar explosivo.
É uma das cidades mais violentas do mundo.
Mata-se com facilidade e sem arrependimento. O homem que assassinou um rapaz no aeroporto disse, ao ser preso, que o fizera para se vingar, pois o outro tinha “pego” a sua mulher. Repetiu que a sua vítima era um “sem-vergonha”. Execuções viraram rotina. Injustiças também. No centro, um prédio público, que ficou vazio durante 12 anos, foi ocupado por 70 famílias (em torno de 30 crianças). Deverá ser desocupado em breve por determinação judicial.
As pessoas que lá estão não têm para onde ir. Nada pode ser feito?
A política anda com ares de Velho Oeste. Em três dias, de fogo apesar da chuva, uma sequência de fatos assustadores: o comitê de um dos candidatos a prefeito, Nelson Marchezan Júnior, foi objeto de dois ataques a tiros; um espaço do outro, Sebastião Melo, teria sido alvo de uma visita de oponentes caracterizada em nota como “invasão”; um órgão público municipal, o Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), sob investigação, sofreu um incêndio criminoso; um dos coordenadores da campanha de Sebastião Melo, Plínio Zalewski, intelectual respeitado, que estava sob forte pressão, suicidou-se na sede do PMDB. Os candidatos acertaram uma trégua de 24 horas, que suspendeu a propaganda no rádio e na televisão, em respeito à morte de Zalewski.
O que está acontecendo? Que cidade é esta? Voltamos no tempo? Como foi que os ânimos se exaltaram tanto? Muito se diz que a população está cansada de polarizações, de extremismo, de ideologias e de confrontos. A realidade parece mostrar, ao contrário, que se está vivendo um aumento extremo de tensão e de conflito. A luta pelo poder continua a ser campo de combate com vítimas pelo caminho. O que se disputa? Cargos, dinheiro, prestígio, espaço para execução de projetos, visões de mundo, uma ideia de futuro? Ou de passado? O que é o poder? Que poder é esse que produz ódio, medo, insultos, ataques, processos, ressentimento?
O tempo passa, a racionalidade envelhece.
Duvido que alguém tenha respostas prontas para tantas perguntas amplas e cheias de perplexidade. Quando me sinto chocado, desando a perguntar. Sou o produto de uma época sombria. Fala-se em pacificação da política. Os acontecimentos indicam o contrário. A guerra está declarada. Nas chamadas redes sociais e no youtube, territórios virtuais do novo Velho Oeste, a agressividade é a tônica. Atira-se sempre antes de perguntar o nome. Bandoleiros querem sangue. Reputações são pisoteadas. Cria-se um clima de terror. O mundo da polêmica chega ao seu limite. Lembra estranhamente os anos 1950, que é possível conhecer como historiador ou leitor de jornais antigos.
Porto Alegre não anda muito alegre. A frase é fácil. As sensações é que são pesadas. O Brasil precisa dar um salto para se reencontrar com as suas esperanças. Sempre fomos o país do futuro – esse futuro que se afasta como o horizonte a cada aproximação. Mas agora estamos parecendo o país de um presente longo demais.
Um presente que se espicha como um pesadelo entre o passado e o futuro.
O mais longo inverno dos últimos tempos.